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Filme: “Vida”

Particularmente amo filmes de terror. Mais do que mero entretenimento, eles podem dizer muito sobre os medos e as expectativas da sociedade que os produz e consome. Por exemplo: na década de 50 o maior medo do norte-americano médio era a bomba atômica. Em meio a Guerra Fria e conflitos na Coreia, esse temor se refletia em filmes de terror cujos antagonistas eram forças destrutivas que não podiam ser paradas na forma de aliens, bolhas gigantes misteriosas e seu maior expoente: o monstro japonês Godzilla, vingança da natureza em resposta à destruição atômica. Na virada do séc. XX para o séc. XXI o maior medo dos yankees passou a ser o terrorismo, cujos agentes operam se infiltrando discretamente em grandes centros populacionais (onde fazem mais estragos) e quase sempre são identificados tarde demais. Nesse período temos o boom de filmes e videogames sobre zumbis, cujo vírus letal atua como essas células terroristas.

Esse medo impera até hoje, com pequenas variantes: o medo de imigrantes, eufemismo para xenofobia. Em uma nação atualmente obcecada com barreiras e com medo de estrangeiros invadindo o país para “roubar seus empregos e recursos” não seria exagero fazer um paralelo com o filme “Vida”, dirigido por Daniel Espinosa. O filme segue a escola Alien de terror sci-fi, tendo todos os elementos clássicos do gênero: um elenco etnicamente diverso, isolação em um ambiente hostil (espaço) e um elemento desconhecido e potencialmente perigoso. O plot gira em torno de um grupo de astronautas em uma missão no espaço para estudar solo marciano acidentalmente descobrindo uma forma de vida unicelular nas amostras de solo, respondendo a uma das perguntas mais antigas da humanidade.

Já pode descansar em paz, doce príncipe.

Você já sabe de cara que algo vai dar errado, e por mais que o filme seja previsível é divertido assistir a trama evoluir enquanto mantém a tensão vibrante. Ao contrário de Alien, de Ridley Scott, o filme não possui uma Ripley como protagonista, ao invés disso distribuindo o foco igualmente entre toda a equipe. O elenco de atores é muito bom e, embora o roteiro não aprofunde muito seus personagens, cada um consegue interpretar bem seu papel. Mesmo distribuindo o tempo de tela entre o elenco de forma democrática o filme permite que certos atores se destaquem com interpretações carismáticas, como Jake Gyllenhaal sendo o personagem misantropo e antissocial do ensemble, Ryan Reynolds fazendo o tipo impetuoso e brincalhão e Ariyon Bakare cativando o público interpretando um cientista que experimenta a liberdade na gravidade zero após viver uma vida inteira preso à cadeira de rodas.

Ao começar a brincar de Frankenstein com o pequeno alien (apelidado de Calvin) uma sequência de eventos catastróficos começa a acontecer à medida que o alien cresce em tamanho, força e inteligência. O roteiro, assinado por Rhett Reese e Paul Wernick, ao não eleger um protagonista acaba deixando o público em dúvida sobre quem vai sobreviver ou não no longa. Essa incerteza somada à ambientação claustrofóbica de corredores apertados e janelas e escotilhas sendo fechadas às pressas (lembra da obsessão com barreiras?) criam uma tensão singular que pressiona cada vez mais os sobreviventes a fazerem escolhas difíceis.

O terceiro ato não consegue ser tão bom quanto os dois primeiros, pois tira o elemento de imprevisibilidade de onde Calvin pode estar espreitando em favor de certas necessidades do plot para obter tanto o final quanto a duração desejados. Mesmo sendo corrido e previsível ainda é possível se divertir vendo o grand finale da disputa pela vida entre humanos e marcianos. O filme deixa sempre claro a sua visão de que o antagonista não é um ser maquiavélico e sádico, mas uma criatura como nós que luta pela própria sobrevivência, e o que o final perde em quesito surpresa, ganha ao instigar a nossa imaginação com o que deve se passar assim que os créditos começam a rolar.

Apesar de seus problemas o filme consegue ser um thriller divertido que prende o espectador mesmo tendo algumas partes arrastadas. Menção honrosa para os efeitos especiais que trazem tanto imagens extraordinárias como a vista da Terra do espaço quanto assustadoramente fascinantes como sangue jorrando em gravidade zero.

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Universitária level 24, geek incurável, baixista da banda Kinderwhores e vendedora de arte na praia nas horas vagas. Atualmente numa quest para conseguir se formar em Artes Cênicas.

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