Livro, Resenhas
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Deuses NeoAmericanos

*Este texto pode conter spoilers.

O livro “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman, é um espetáculo. Lançado em 2001, ele é um exemplo de uma narrativa extremamente bem contada e envolvente que associa com precisão metafórica elementos da vida real e o sobrenatural e mágico. As melhores partes do livro, na minha opinião, são os capítulos de “Vindas à América”. Colocados em partes estratégicas do livro, aparentemente sem conexão alguma com a história corrente, eles revelam muito do universo fantástico criado por Gaiman.

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Estes capítulos contam sobre os mais diferentes povos e suas respectivas culturas que imigraram para os Estados Unidos da América. Os vikings, primeiros descobridores dessa nova terra; os irlandeses, que podem muito bem representar os europeus continentais imigrados, em especial os ingleses na primeira leva; os árabes e povos do oriente médio, numa escala de tempo mais recente e atual; os africanos, principalmente como escravos e mão de obra; e o primeiro povo a ultrapassar o Estreito de Bering e chegar oficialmente nas terras dos Estados Unidos.

Desses, todos me cativaram. Seja pelos personagens apresentados ou pela excelente narrativa de suas aventuras (e desventuras) para chegar e se manter na tão conhecida “terra das oportunidades”. Todos soaram humanos em suas vidas que, apesar de fictícias, poderiam muito bem ser reais. Frágeis, errados, falhos, amedrontados, são fáceis de se identificar com o que impacta ainda mais na sua chegada a terras estrangeiras.

A história dos africanos, especialmente, é extremamente poderosa, com ação, magia e romance, tudo envolto por uma camada de luta pela liberdade, que representa até hoje a figura negra nos EUA. O que muito me chamou a atenção é que facilmente aquela história e seus personagens poderiam estar situados no Brasil. Apesar de estar lendo um livro intitulado “Deuses Americanos” (lembrando que o “americanos”, aqui, refere-se a “norte-americanos”), eu de repente fui transportado  para o Brasil Colônia ou o Brasil Império, em um engenho de açúcar ou plantação de café. Com suas devidas ressalvas e especificidades, é plausível imaginar e traçar um paralelo da história de Wututu e os negros que viviam em escravidão no Brasil.

O segmento final, do primeiro povo a chegar nos EUA, também é extremamente interessante.  O povo que viria a constituir o “americano padrão”, o “americano raiz”, é  na verdade um imigrante por natureza. Chegou vindo de longe, enfrentando infortúnios, resistindo na sua fé e na sua crença de que encontraria lá longe uma terra de liberdades, oportunidades e abundâncias. Um american dream neolítico.

E por fim chegamos ao hoje. O mundo atual, globalizado, capitalizado, uma forma de escravidão com algumas etapas a mais, representado pela figura do árabe imigrante, que larga tudo e viaja para os EUA na procura… do que mesmo? Felicidade? Realização? Dinheiro – o atual sinônimo de abundância, a liberdade monetária, o recurso em forma física. Ao fim desse capítulo, o Djinn, como o gênio da lâmpada das histórias antigas, concede ao árabe seu desejo: a desvinculação de sua vida passada, e consequentemente de todos os seus traumas e medos. Seus grilhões rompidos, seu passado esquecido, incluindo o seu nome, ainda que tenha que enfrentar uma vida de subemprego e solidão. Afinal, foi sua escolha, não é? Muitas vezes não.

Todos esses personagens apresentados sofreram inúmeras injúrias, desventuras e infortúnios. Perpassaram por extremas dificuldades munidos de mais do que só sua fé em seus deuses e criaturas, que os davam conforto e segurança, mas de sua crença. Crença que achariam sucesso e glorias em terras americanas.

E todos esses povos misturam-se em uma colcha de retalhos.

Chegam a uma terra nova, onde são estranhos, amontoados entre um mundo de iguais, semelhantes por suas diferenças. Não são americanos, rapidamente são rotulados e absorvidos pela América, perdendo-se entre suas eiras, beiras, becos e estradas vazias. Lá conhecem novos Deuses e rapidamente passam a adorá-los. Eles oferecem conforto, alívio, fugas vívidas e fugazes de uma realidade excruciante. São muitas vezes os únicos que os adotam de braços abertos e não os rotulam de aliens ou invasores, mas sim de mais um. Não perguntam, não julgam. Entre eles todos são iguais, todos são bem-vindos.

E assim o Álcool, o Tabaco, a Pornografia, a Heroína, a TV, vão ganhando espaço, vão ganhando adeptos e surgem como os novos deuses a serem cultuados. Antes de sangue, de genealogia, de cor de pele, do deus(es) que venerava, o que mais marca são as semelhanças: estão todos motivados pela procura infinita de oportunidades, pela eterna busca pela felicidade.

Sonhos, desejos. Mínimos divisores em comum que juntam quase todos, senão todos que se amontoam nos portões de embarque de aeroportos, em muros artificiais, de fronteiras fictícias. Porque um povo miscigenado que busca dividir origens encontrará a si mesmo fragmentado.

Ao fim, o que nos aproxima é maior do que o que nos divide.

“Deuses Americanos”
Autor: Neil Gaiman
Editora: Intrínseca
Páginas: 576

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