Experimentos, Literatura
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“Feminista” não é ofensa, é elogio

O que eu queria dizer talvez não pudesse ser dito. Eu queria dizer — e no final das contas disse — que ela é feminista.

Comecei a escrever uma resenha sobre o livro “Em Águas Sombrias”, da Paula Hawkins, e demorei muito mais que o aceitável para colocar em palavras o que eu queria dizer. Foram quase 10 minutos reescrevendo a mesma frase até que eu percebesse o que estava fazendo, então o que a princípio seria apenas uma resenha acabou virando o que você está lendo agora: um metatexto sobre a minha experiência de escrever uma resenha sobre esse livro. Tudo isso para te dizer que toda aquela hesitação de 10 minutos foi porque o que eu queria dizer talvez não pudesse ser dito. Eu queria dizer — e no final das contas disse — que ela é feminista.

Eu sou feminista e digo isso com orgulho. Então por que eu hesitei tanto em categorizar outra mulher como tal? Contextualizando, Paula Hawkins é uma jornalista inglesa com dois livros publicados. O primeiro foi “A Garota no Trem”, cuja protagonista é uma mulher apontada pelo ex-marido como mais uma louca histérica no mundo. Puro gaslighting[1], percebe? Literariamente falando, não é um livro dos melhores, mas o thriller e seus plot twists (ainda que previsíveis) ganharam o gosto de muita gente e o livro acabou sendo adaptado para o cinema. E isso fez com que o seu segundo livro, antes mesmo do feedback do público, já tivesse seus direitos de adaptação adquiridos.

“Em Águas Sombrias” promete muito mais que seu irmão mais velho. Com escrita mais madura, Paula Hawkins aprofunda a abordagem do machismo, o que começa a se firmar como uma constante em sua escrita. Se no livro anterior o gaslighting não foi nomeado, dependendo inteiramente da interpretação do leitor para ser identificado, agora questões essenciais do feminismo e empoderamento da mulher são apresentados com muito mais clareza. Conceitos como silenciamento da mulher e sororidade[2], por exemplo, estão presentes tanto nas falas das personagens quanto nas cenas. Ou seja, ou o leitor aprende cognitivamente através das palavras, ou aprende por inspiração com a observação dos exemplos.

Desde o lançamento de “Em Águas Sombrias”, é possível encontrar reclamações sobre a quantidade de pontos de vista apresentados na narrativa: são mais de 10, onde a diferenciação dos personagens se dá somente pelo seu nome no início do capítulo correspondente. De fato, outras soluções poderiam ter sido usadas para evitar a confusão dos leitores — são muitos personagens, e guardar o nome de todos requer atenção redobrada. Mas o foco deste texto não é o valor artístico das obras da autora, e sim o seu valor social. (Até porque quem stalkear meu perfil no Goodreads vai notar alguns comentários bem insatisfeitos sobre “A Garota no Trem”). Em meio a duas histórias voltadas claramente para a massa, surgem discussões sobre o machismo que atua todos os dias justamente sobre essa massa. E é justamente aí, na minha opinião, que está a relevância dos livros em questão.

Ser feminista é uma bandeira que somente a própria pessoa pode levantar?

Então, repito a pergunta: Por que eu hesitei tanto em dizer que alguém é feminista? Por que temi dizer que Paula Hawkins, uma autora que tem pincelado sua carreira com obras que abordam assuntos feministas, é feminista? Ser feminista é uma bandeira que somente a própria pessoa pode levantar, ou é perfeitamente aceitável que eu identifique outra pessoa como tal, baseada nas coisas que ela diz ou escreve?

Tenho minhas suspeitas, e todas são fruto de especulações e nenhuma certeza — aliás, é por isso que escrevo este texto, para trocar experiências com quem me lê e buscar uma solução em conjunto. Suspeito de que, depois de tantos anos ouvindo “feminista” em tom de ofensa, a gente acabe internalizando que “feminista” é ofensa. E por mais orgulho que alguém tenha de sê-lo, é como se não deixasse de ser ofensa, passa apenas a ser aquele tipo de ofensa auto infligível.

Então eu gostaria de dizer: “feminista” não é ofensa e “feminismo” não deveria ser um terreno difícil, deveria ser consenso. Da mesma forma que qualquer pessoa razoavelmente sã concorda que o nazismo é um absurdo.

“Feminista” não é ofensa, é elogio.

E “feminazi” não existe. Achei importante frisar.


[1] Gaslighting é uma forma de abuso psicológico no qual informações são distorcidas, seletivamente omitidas para favorecer o abusador ou simplesmente inventadas com a intenção de fazer a vítima duvidar de sua própria memória, percepção e sanidade.
Clique aqui e descubra se você é vítima de abuso psicológico. 

[2] Sororidade é a união e aliança entre mulheres, baseado na empatia e companheirismo, em busca de alcançar objetivos em comum. Do ponto de vista do feminismo, a sororidade consiste no não julgamento prévio entre as próprias mulheres que, na maioria das vezes, ajudam a fortalecer estereótipos preconceituosos criados por uma sociedade machista e patriarcal.
Clique aqui e conheça o livro “Vamos Juntas?”, que explica o conceito.


LIVROS CITADOS:


“A Garota no Trem”
(The Girl on the Train)

Autora: Paula Hawkins
Editora: Record
Páginas: 378

 


“Em Águas Sombrias”
(Into the Water)
Autora: Paula Hawkins
Editora: Record
Páginas: 364

 


“Vamos Juntas?”

Autora: Babi Souza
Editora: Galera Record
Páginas: 144

 

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