Livro, Resenhas
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Uma Magia Mais Real

Eu nunca fui muito fã do gênero “fantasia”, mas me lembro de quando li “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Aquele mundo fictício de Londres tinha uma lógica interna que absorveu completamente a atenção de um garoto de 11 anos. Eu queria saber qual era a minha casa e minha varinha. “O Enigma de Blackthorn” te leva para uma Londres tão pitoresca quanto, mas muito mais realista. Eu prometi a mim mesmo não traçar paralelos entre o aprendiz de bruxo e o aprendiz de boticário, mas isso acabou se tornando inevitável.

Em vez de nos levar para um beco retrô, “O Enigma de Blackthorn” nos joga direto no passado: O livro se passa em Londres pouco tempo depois da Revolução Inglesa, com as tensões políticas a flor da pele. O livro faz um bom trabalho em descrever como eram a vida naquela época. A sujeira, o fedor e a medicina questionável pintam um quadro bastante preciso, e não é nada de se sentir inveja. Ainda assim, parte da graça do livro é sentir nojo de como as pessoas viviam daquele jeito.

Acompanhamos o livro pelos olhos de Christopher Rowe, um menino órfão que recebeu a sorte grande de ser patronado por um boticário: o infame Benedict Blackthorn. Quando um serial killer põe um alvo nas costas dos boticários, o jogo político da guilda dos boticários acaba escalonando, e o mestre de Christopher acaba sendo assassinado. É claro, isso não sem antes deixar pistas para seu competente aprendiz desvendar o seu caso. A história não é pra lá de original, e algumas reviravoltas nós conseguimos ver a alguns metros de distância. O elenco também não muda muito comparado à chatuba de Hogwarts (ou de qualquer monomito): o garoto obstinado, o amigo engraçado, a garota com jeito moleque, o mentor. Nenhuma obra tem copyright desses arquétipos, mas é ruim vê-los usados sem um brilho de excentricidade.

Como o título do livro já sugere, vamos ter um monte de enigmas. Nessa parte, o livro me evocou fortemente Artemis Fowl. Infelizmente, o trabalho de solução desses enigmas não é algo gracioso. O livro lhe oferece símbolos e códigos com letras e números, mas poucas vezes temos a ferramenta para decifrar o que está na nossa frente. Acabamos tendo que esperar o prodígio Christopher Rowe fazer o trabalho chato por nós. E é somente isso que é: trabalho de português. É cansativo, e dificilmente acontece um estalo de brilhantismo à la Poirot.

Apesar da narrativa não ser um ponto forte, a escrita é sólida. Descrições são precisas, sem gastar muito tempo, e conseguem pintar bem as ações. “O Enigma de Blackthorn” não vai mudar a sua vida nem fazer você querer ser um boticário, mas, para qualquer tarado no gênero, o livro proporciona alguns momentos divertidos. Não é que se trate de um livro ruim, mas não é um livro ótimo.

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