Livro, Resenhas
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“A Montanha Mágica” – Magnum Opus da enfermidade

Em 1912 Thomas Mann, escritor filho de mãe brasileira e pai alemão, visitou sua esposa em Davos, na Suíça, que estava internada num sanatório para tratar a sua tuberculose. A partir dessa curta visita foi plantada a semente de um dos maiores monumentos literários do séc. XX: “Der Zauberberg” ou, em belo português, “A Montanha Mágica”.

Centrada na mesma cidade, a história é considerada por muitos críticos literários como um bildungsroman (do alemão “romance de formação”, obra literária que foca nos anos de educação e formação do protagonista), já outros consideram-na uma paródia do gênero. A obra em si desafia qualquer definição que lhe é atribuída, tanto pela magnitude de assuntos abarcados (vida e morte, tempo, doença, amor, arte e política), quanto pela linguagem carregada de referências clássicas e ironia. O sanatório, localizado na Suíça, é utilizado como lente para examinar o microcosmos do zeitgeist europeu.

O protagonista Hans Castorp vai ao sanatório Berghof para visitar seu primo Joachim Ziemssen e em sua passagem descobre uma petite tache humide em seu pulmão. A estadia que originalmente deveria durar três semanas alonga-se por anos, e Mann acompanha os aprendizados e vivências de nosso Castorp.

Conforme se acostuma à vida “horizontal” levada no sanatório, o miasma do local já começa a embaçar a percepção temporal de Hans Castorp. A doença, um dos temas principais da obra, não é apenas orgânica: assume diversas formas, entre elas a espiritual. Ao levar uma vida indolente e sem preocupações, os próprios pacientes de Berghof admitem usar meses como a menor medida corrente para contabilizar a passagem de tempo, e o deslocamento espacial e temporal é reforçado pela linguagem que utilizam, referindo-se ao sanatório como “aqui em cima” e ao resto do mundo como “as terras planas”.

Os personagens são figuras arquetípicas, representando diferentes potências, classes e ideologias. Mann utiliza pequenos leitmotivs que reforçam essa suspensão temporal e os signos que cada personagem traduz; são gestus brechtianos como um farfalhar de bigode, uma risada tapando a boca com um lenço perfumado ou um jeito específico de andar repetidos ad nauseam que dão uma dimensão não-realista e simbólica a essas figuras.

O cotidiano no sanatório regrado por horários rígidos e repetições causa também esse torpor que contagia quem lá se hospeda. A maior parte das interações se dá na sala de refeições, onde os pacientes se sentam em lugares e mesas designadas. É interessante notar que a profunda divisão de classes da Rússia czarista ecoa até mesmo no Berghof, pois seus nativos são separados entre a mesa dos “russos ordinários” e a mesa dos “russos distintos”. A morte, outro tema central do romance, também é abordada de forma ambígua em Davos. Não se fala sobre ela, apesar de ser um fator onipresente, e quando alguém morre seu corpo é retirado de madrugada, longe dos olhos enfermos. O  médico diretor do sanatório, Dr. Behrens, é apelidado de “Radamanto”, um dos juízes do inferno na mitologia grega.

O próprio Hans Castorp é um alemão mediano, criado assim para representar além de si mesmo o espírito de sua nação. Diferente de seu primo Joachim, militar e símbolo da retidão e do dever, Hans é um “paisano” sem grandes ambições ou desejos para o futuro. Durante seu tratamento ele encontra seu primeiro mentor: Ludovico Settembrini, um italiano humanista e maçon, neto de um membro dos carbonaros e árduo defensor dos ideais iluministas e burgueses. Ao saber da história de Setembrinni e de seu avô, revolucionário e progressista, Hans lembra de seu próprio avô já falecido, vereador de sua cidade e homem conservador. Numa passagem particularmente bela o autor mostra o jovem Castorp dividido entre os dois opostos, um reflexo da Alemanha que foi tanto berço do marxismo quanto do nazismo que encontrava-se com o espírito igualmente em conflito na virada do século:

“Recordou um solitário passeio de barca, ao crepúsculo, num lago de Holstein, passeio que fizera em fins de verão, alguns anos antes. (…) A oeste resplandecera, como em pleno dia, uma luz vítrea, prosaica, decidida; mas bastara voltar a cabeça para deparar com uma paisagem de luar, igualmente típica, entremeada de brumas úmidas e cheia de mágico encanto. (…) Com um pasmo alegre, os olhos deslumbrados e confundidos de Hans Castorp haviam passado de uma iluminação e de uma paisagem à outra, do dia para a noite e da noite para o dia. E nesse instante, ao comparar os dois avôs, não pôde deixar de se lembrar daquela impressão.”

(Parte III, capítulo “TEMOR NASCENTE. DOS DOIS AVÔS E DO PASSEIO DE BARCA AO CREPÚSCULO”)

Mais adiante, um novo personagem é introduzido também como mentor, Naphta, um jesuíta de origem judaica de semblante grotesco que mistura marxismo, cristinanismo e totalitarismo, defendendo uma ideologia autoritária e radical que se opõem aos ideais de Ludovico. Ao longo dos livros os dois se enfrentam em interessantes debates filosóficos que culminam em um clímax simbólico e premonitório dos espectros ideológicos que assombram a Europa.

O florescer de Hans também ocorre no nível erótico. O personagem tem sua atenção fisgada por Clawdia Chauchat (do francês chaud chat, “gata quente” ou “gata fogosa”, e do inglês claw, “garra”), residente russa de “olhos quirguizes e andar felino” que a princípio o irrita e lentamente torna-se sua fixação romântica. Clawdia é a alegoria das potências românticas, sendo a representante do desejo sexual no livro, e sua influência tanto na vida de Hans quanto na do sanatório é apenas um de tantos rastros da influência de Nietzche na escrita de Thomas Mann. O filósofo percebeu que as instituições que ditavam as morais e guiavam a vida das pessoas em nossa sociedade tinham prazo de validade e que era urgente a necessidade de encontrar um sentido de viver não na moral da religião, mas na arte, nas paixões, na contemplação da natureza e na própria razão. Nietzche também usou muito o conceito dos pólos “apolíneo” e “dionisíaco” na estética em sua obra “O Nascimento da Tragédia” (de onde Thomas Mann tirou o título deste romance), o primeiro sendo os impulsos harmoniosos e o distanciamento crítico do “eu” e o segundo sendo os impulsos de afirmação da vida, do caos e da conexão com o “eu”. Em “A Montanha Mágica” o pólo dionisíaco e representado pelo personagem Mynheer Peeperkorn, que aparece já perto do final do livro. Peeperkorn é a própria encarnação do grotesco dionisíaco: ele tem porte e fala grandiloquentes, come e bebe de maneira cartunesca e exagerada, inspira tanto reverência quanto um sentimento de ingenuidade e é incapaz de completar um pensamento coeso. Tanto ele quanto Clawdia exercem um imenso magnetismo em Hans Castorp, e não é ao acaso que o capítulo seguinte às suas últimas aparições é intitulado “O Grande Tédio”.

O trabalho de Mann foi interrompido com a eclosão da Primeira Guerra Mundial e só foi publicado em 1924. A maior parte do livro foi escrita após o início da guerra, o que influenciou muito o tom e a direção da narrativa. De certa forma é possível sentir um pouco o luto do autor no capítulo “Coisas Muito Questionáveis”, que narra uma sessão espírita e faz uma paródia ao canto XI da Odisseia, de Homero, no momento em que Ulisses desce ao Hades e vê seus companheiros mortos da guerra de Troia. Assim como o autor, Hans Castorp é surpreendido pela guerra. Já completamente contagiado pela lassidão da “vida horizontal”, ignora os avisos de Setembrinni sobre as forças políticas e ideológicas em ação. Como a Torre de Babel, símbolo da vaidade humana, a nossa multicultural e hedonista Montanha Mágica explode e nosso protagonista é arremessado no coração do conflito, tendo um destino sombrio e incerto à sua frente.

Em 2016 “A Montanha Mágica” voltou às livrarias brasileiras com a bela edição de capa dura da Companhia das Letras. Thomas Mann ganhou o prêmio Nobel em literatura com “Os Budenbrook” em 1929 e também foi agraciado com os prêmios Goethe e Antonio Feltrinelli. Faleceu em Zurique no ano de 1955.

“A Montanha Mágica”
Autor: Thomas Mann
Editora: Companhia das Letras
Páginas: 1029
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