Livro, Resenhas
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A (falta de) representatividade negra em “A Casa das Sete Mulheres”

Logo no início da minha leitura de “A Casa das Sete Mulheres”, expressei meu descontentamento no instagram: a pouca representatividade dos personagens negros me incomodou muito, provavelmente porque contrastou com o tipo de leitura que tenho feito ultimamente. Considerei todos os comentários que recebi na postagem, e as quase 500 páginas do livro me deram tempo e material suficientes para estruturar melhor a minha opinião. Agora, terminada a leitura, parte do meu descontentamento permanece. E eu gostaria de saber o que vocês têm a dizer sobre isso.

IMPORTANTE: Estas minhas divagações dizem respeito apenas ao primeiro livro da trilogia. Depois que eu ler os outros poderei atualizar minha opinião sobre o assunto (e espero que ela tenha motivos para mudar).

“A Casa das Sete Mulheres” é um romance histórico contextualizado na Revolução Farroupilha (1835-1845), que foi uma luta dos latifundiários do Rio Grande do Sul contra o Império Brasileiro. Valendo-se de muita pesquisa, a autora Leticia Wierzchowski mistura realidade e ficção. No plot da história, enquanto o líder do movimento Bento Gonçalves e todos os homens com idade suficiente vão para o combate, as sete mulheres da família são isoladas em uma estância afastada das áreas de conflito, com o propósito de permanecerem protegidas. E, como é de se esperar pelo título, toda a história é contada pelo ponto de vista delas.

Trata-se de um livro indiscutivelmente bom, com valor literário chancelado pela adaptação para série de TV realizada em 2003 pela Globo. A presença de certa dose de realismo fantástico, tão comum à nossa cultura latino-americana, ganhou o meu coraçãozinho. No entanto, conforme mencionei anteriormente, a falta de representatividade negra me incomodou demais, e nem a escrita envolvente da autora conseguiu aplacar a minha ansiedade em relação a isso.

Estamos nos tornando os ‘chatos da representatividade’?

A história se passa ainda durante a escravidão, o que significa que certamente há mulheres negras dentro da casa, já que seria normal que uma família de latifundiários tivesse escravos. Apesar disso, as personagens negras existentes na história são apenas acessórios, seres quase invisíveis responsáveis pelos afazeres domésticos. Elas não pensam, não se cansam, não sentem medo da guerra que leva seus homens negros à força para a batalha alheia. São excluídas até mesmo no título do livro, que leva em conta apenas as sete mulheres brancas parentes de Bento Gonçalves, chefe da revolução.

Quando se trata de representatividade, acho que sua existência depende de muitas coisas, como a época em que a obra foi escrita, a intenção do autor ao escreve-la, a história que é contada e o tamanho do universo que ela aborda. Mas neste caso, considerando a extensão da obra (uma trilogia que totaliza quase 1500 páginas) e sua proposta de contar a guerra pela perspectiva feminina, me incomoda que a única perspectiva abordada no primeiro livro seja a das mulheres brancas.

Um amigo me disse que o fato de não representar o negros pode ter sido uma escolha consciente, como um recurso literário que diz “veja só como a escravidão não dava voz aos negros”. Mesmo assim, para mim o valor desse recurso torna-se nulo a partir do momento em que sua intenção não é evidenciada em momento nenhum.

De qualquer forma, é preciso deixar claro que estes meus pensamentos dizem respeito à minha experiência com o primeiro livro da série. Como ainda não li os outros dois, minha opinião ainda não está inteiramente formada,  já que não sei se a questão da representatividade avança (ou não). Então deixo a pergunta: O QUE VOCÊ ACHA SOBRE O ASSUNTO?

“A Casa das Sete Mulheres”
Autora: Letícia Wierzchowski
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 462

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3 comentários

  1. Vinícius Gil diz

    Eu concordo com o seu amigo, provavelmente deve ter sido uma escolha consciente… Mas realmente, não citar o papel das mulheres negras em nenhum momento da história, é muito problemático.

    Acho muito interessante esse debate sobre representatividade, temos que falar mais sobre isso, até porque esse tipo de debate, quando ocorre, acaba sendo abafado por algum outro assunto. Isso acontece demais nos ambientes acadêmicos.

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    • Escolha consciente, com certeza. Mas você acha que isso foi feito com o propósito de falar sobre a invisibilidade das mulheres negras? Não acho que tenha sido essa a intenção, já que não tem nada no livro que aponte esse caminho. Fica mais por conta da nossa interpretação mesmo, dissociada da obra.

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      • Vinícius Gil diz

        Pois é, eu acho que a invisibilidade ficou invisível no livro, ou seja, realmente ela não foi demonstrada em momento algum. Mas o livro é muito bom apesar disso.
        O que eu fico preocupado é que às vezes algumas pessoas acabam condenando o livro por essa falta de representatividade, o que não é o caso desse seu post, mas acontece com outros livros ou artigos que alguns desistem de ler por causa de “furos” parecidos.
        Só não escrevo muito mais sobre isso porque acho que não consigo me expressar muito bem pela escrita.

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