Autor: Adélia Jeveaux

Quando o filme é melhor do que o livro

Costumamos ter como máxima que livros são sempre melhores do que suas adaptações cinematográficas. Parece ser ponto pacífico que nos seus originais literários as histórias encontrem uma realização mais complexa, mais total. Inclusive, muito se argumenta em favor do formato do audiovisual seriado, por ser um tempo-espaço onde uma trama consegue se desenvolver com um ritmo em tese mais aprofundado do que o clássico longa-metragem. Mas ainda assim, mesmo nesse território, adaptações costumam ganhar a fama de versões pioradas de livros. Este definitivamente não é o caso de “A Menina Que Tinha Dons”. O livro de M.R. Carey nos traz a história de Melanie, uma criança da segunda geração de um mundo infectado por um fungo que desencadeou o apocalipse zumbi, aqui chamados de “famintos”. A segunda geração contaminada apresenta as funções mentais preservadas, e inclusive Melanie é algo como uma superdotada, extremamente inteligente e plenamente capaz de nutrir afeto, o que a coloca numa luta interna com seus instintos bestiais. Um grupo de crianças é mantido numa base militar sob rígida rotina de confinamento, …

Tarde demais para ser odioso

Uma fala do filme “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, diz: “Há dois caminhos na vida: o da natureza e o da graça”. Imanência e transcendência, instinto e racionalidade, biologia e cultura. Dualismos à parte, muitas vezes descobrimos que os caminhos são ao mesmo tempo infinitos e ao mesmo tempo um só. “O Pescoço da Girafa”, de Judith Shalansky, traz Inge Lohmark, uma mulher de meia-idade, professora de adolescentes numa escola situada na região que pertencera à Alemanha Oriental. Inge é uma mulher aparentemente agarrada a um outro tempo, e carrega notas de desgosto em cada olhar que direciona à juventude com que convive. Suas observações percorrem um território sem fronteiras no texto, ora se está imerso no fluxo de pensamento da personagem, ora se está de fora, e há momentos em que simplesmente não é possível diferenciar. No entanto, essa melancolia amarga de quem supostamente viveu tempos melhores é apenas a superfície de Inge. O rancor da personagem se dirige a tudo: à beleza e ao sofrimento da adolescência, às demonstrações de carinho de …

Precisamos falar sobre “O Filho Eterno”

É sempre um risco falar de maternidade e paternidade. Independente do conteúdo ou da forma, sempre paira no ar toda a carga de julgamentos morais que, apesar de recentes na História, parecem estar tão entranhados na nossa corporalidade, e às vezes é inevitável que eles se presentifiquem. Um livro como “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza, faz com que essas fibras imaginárias se contorçam permanentemente, ao mesmo tempo gerando repulsa e atração no leitor. O livro de Tezza é daqueles em que se sofre a cada página, mas também é impossível parar. Não no sentido de um masoquismo vazio, mas porque é uma experiência rara a de se ver enlaçado por coisas que você não quer ouvir, e que talvez atinjam em algo parecido com seu âmago. O livro acaba de ser adaptado para os cinemas, com estréia prevista para o dia 30 de novembro, e a convite do Literasutra pude conferir o filme em primeira mão. “O Filho Eterno” é a história de um homem cujo filho tem síndrome de Down. O desvio do termo “pai” …

Um dia de FLUPP

“Tente apenas reproduzir os gestos dele. Você vai ouvir a história do senhor José Farias, que perdeu o filho vítima de bala perdida com 2 anos de idade há 20 anos atrás”. Me ajustam o Oculus no rosto e o fone sobre os ouvidos, e a experiência começa. Sentado no sofá de casa, olho para baixo e sou seu José. Minha pele é negra, visto uma camiseta com a foto do meu filho. Minha esposa, Penha, entra na sala e me entrega uma foto dele. Quando ergo as mãos, tateio a foto que ela me alcança, abaixo-a e a levanto, revisitando com o olhar os contornos de Maicon. Minha esposa narra toda a cena do dia em que Maicon morreu, e como o encontrei. Ela então me coloca seus tênis nas mãos, e tateio os cadarços e os vincos do solado, e posso apenas imaginar o tamanho de seu corpinho no meu colo. Nesse momento, eu, Adélia, sinto a experiência pesar, e me descolo do corpo de Seu José, num ímpeto de chorar. Porque Seu …

Para a Flávia

Li “Cravos” de uma vez. Abri o livro, não li nada a respeito, nem a orelha, fui direto pro texto. Fui capturada, mas sem arroubo. Foi algo como o espontâneo e suave rodopio de Cyd Charisse que inicia o pas-de-deux com Fred Astaire, em The Bang Wagon. O texto é verdadeiramente uma dança, mesmo quando não faz referência a bailarinos e coreógrafos, aos nomes técnicos de passos, ao linóleo (referências estas que, pra mim, têm um sabor especial). Ler “Cravos” é como ver um palco cujo holofote acende e apaga em recantos alternados, ora com um solo, ora com uma composição de dois ou mais corpos.

“Bowie”: Uma biografia que não faz jus

Há seis meses acordei de ressaca, às 6 e pouco da manhã, com uma mensagem de Whatsapp de um amigo que dizia que Bowie estava morto. Minha reação inicial foi abaixar o celular e tentar dormir mais, “talvez ele esteja sendo metafórico, não deve ter gostado do disco novo”, vai saber. Alguns segundos depois, meu coração disparou, joguei no Google e vi a notícia. O dia foi muito pesado, lembro de cada momento e de cada nuance, tudo tão carregado de emoção. A comoção dos amigos, amigos de amigos e nos vídeos que circulavam de todos os cantos do mundo na internet foi algo sem precedentes. “Foi como perder um Beatle”, alguém disse. Não. Foi como perder Bowie. Quando recebi a biografia escrita por Wendy Leigh, mergulhei com entusiasmo. No entanto, conforme percorria as quase 300 páginas, percebi algumas constantes no texto que foram (por total falta de melhor expressão) completamente broxantes.

Na Companhia de Linha M

Demorei mais de um mês para percorrer as pouco mais de 200 páginas de “Linha M”, de Patti Smith. Atribulações do cotidiano somadas a outras demandas de leitura e a uma certa falta de ritmo esticaram a presença do livro na minha cabeceira. No entanto, ao encerrá-lo, tive a sensação de que o livro durou o tempo que tinha que durar, numa consonância involuntária com o próprio sentimento do texto.

Quando a vulnerabilidade coexiste com a perspicácia

Obras que ofereçam uma experiência infantil no texto, uma perspectiva da criança sobre o mundo adulto, são extremamente raras. Tanto em oferta quanto em êxito. Como leitora, roteirista e ex-livreira, estou em permanente caça a livros que transitem por esse universo, de modo que devo admitir que foi um deslize meu não ter ouvido falar de “Quarto”, de Emma Donoghue, até os primeiros sinais de que sua adaptação para o cinema apontava para indicações aos Oscar. Logo que li a storyline numa matéria sobre os filmes mais aguardados da temporada, fui atrás de mais informações sobre a história de “Quarto” e comprei a versão digital do livro, por conta de falta de estoque impresso em diversas livrarias. Não tinha nenhuma expectativa particular, meu interesse foi conhecer a versão original para poder, então, assistir ao filme, que será lançado no Brasil no próximo dia 18/02. Mas logo nas primeiras páginas entendi que estava entrando numa experiência forte, dura, e profundamente comovente em si mesma. Um livro doído de se ler, difícil de parar, e, principalmente, de …