Autor: Beatriz Casarotto

Filme: Guardiões da Galáxia Vol. 2

Quando a Marvel anunciou que lançaria um filme sobre a sua série “Guardiões da Galáxia” todos ficaram levemente incrédulos. Afinal, apesar de ser uma série amada pelos fãs não trata-se de um dos carros-chefes do estúdio como “X-Men”, “Homem-Aranha” ou “Vingadores”. Mas assim que o filme saiu surpreendeu todos os céticos revelando-se um verdadeiro hit do MCU. Ao contrário do primeiro filme, “Guardiões da Galáxia Vol. 2” já era aguardado com as expectativas altas e, honrando seu legado, não desaponta. Se o mote do primeiro era sobre a reunião dos personagens principais, o mote do segundo é sobre a união desses mesmos personagens sendo testada. “Ohana” quer dizer “família”, e “família” é a palavra-chave que está no coração da história desse filme. Só a escolha do título do filme já revela muito sobre seu conteúdo: o termo “volume 2” faz referência não só à fita que Starlord (Chris Pratt) recebeu de presente de sua mãe quando criança, símbolo de sua conexão com a Terra e suas questões com figuras parentais, mas também nos traz a …

Filme: “Vida”

Particularmente amo filmes de terror. Mais do que mero entretenimento, eles podem dizer muito sobre os medos e as expectativas da sociedade que os produz e consome. Por exemplo: na década de 50 o maior medo do norte-americano médio era a bomba atômica. Em meio a Guerra Fria e conflitos na Coreia, esse temor se refletia em filmes de terror cujos antagonistas eram forças destrutivas que não podiam ser paradas na forma de aliens, bolhas gigantes misteriosas e seu maior expoente: o monstro japonês Godzilla, vingança da natureza em resposta à destruição atômica. Na virada do séc. XX para o séc. XXI o maior medo dos yankees passou a ser o terrorismo, cujos agentes operam se infiltrando discretamente em grandes centros populacionais (onde fazem mais estragos) e quase sempre são identificados tarde demais. Nesse período temos o boom de filmes e videogames sobre zumbis, cujo vírus letal atua como essas células terroristas. Esse medo impera até hoje, com pequenas variantes: o medo de imigrantes, eufemismo para xenofobia. Em uma nação atualmente obcecada com barreiras e …

Uma Vela Para Deus

Deus está morto e Terry Eagleton é o detetive que, investigando o caso, chegou à conclusão de que [alerta de spoiler] não, não foi o Coronel Mostarda na sala de música com um castiçal. O título provocativo “A Morte de Deus na Cultura” faz uma alusão à famosa frase de Nietschi Niecthe Nietzsche, filósofo mais citado e mal interpretado por meninas de 16 anos no instagram e pintores frustrados que tentaram estabelecer o Terceiro Reich Alemão. O que me fez querer ler esse livro foi uma curiosidade um tanto cética quanto ao título: é impossível passar um dia sem ficar frustrada com algo que a bancada evangélica fez ou disse no congresso, da mesma forma que notícias sobre os conflitos entre grupos fundamentalistas religiosos no oriente médio não param de chegar. Como alguém pode afirmar que vivemos numa cultura sem religião? Já nas primeiras linhas do prefácio Eagleton esmaga meus questionamentos: “O leitor que considera a religião tediosa, irrelevante ou ofensiva não precisa se intimidar com meu título. Este livro fala menos de Deus que …

Poema Bandido

Vou contar algo que pode ser meio chocante para vocês: a década de 70 não foi muito legal no Brasil. Ta, eu nem sonhava em existir durante essa época, mas felizmente prestei atenção nas aulas de História e li algumas coisas pra saber que a ditadura não era um mar de rosas. Mas o mais interessante é o efeito que a repressão causa em uma sociedade: os artistas precisam refinar suas obras para driblar a censura, além de tornar sua arte mais visceral para bater de frente com o pensamento conservador e retrógrado. Ser artista, estar na margem da sociedade, vira um ato de resistência. “Ficou moderno o Brasil ficou moderno o milagre: a água já não vira vinho, vira direto vinagre.” (CACASO; trecho de “Jogos Florais”; página 71)

Picadeiro Steampunk

A arte circense é uma das mais antigas do mundo, tendo sementes de suas diferentes facetas em várias civilizações antigas. O circo moderno existe desde o séc. XVIII e até hoje nos encanta não só pelas performances quase sobrenaturais de seus membros, mas pela sua própria natureza romântica de uma trupe de artistas viajantes sem rumo, que não possui nada que a prenda em um lugar e que é moldada pelos anos de estrada em uma família. Não é por acaso que a autora Genevieve Valentine escolheu essa temática para trabalhar. “O Circo Mecânico Tresaulti” é um romance de estética steampunk cuja fábula gira em torno dos conflitos de uma companhia circense em meio ao caos da guerra. Mesmo com o constante risco de destruição iminente os habitantes das cidades sempre lotam as arquibancadas para ver o estranho espetáculo proporcionado por artistas-máquinas. Homens com engrenagens no lugar de articulações, trapezistas com ossos de cobre e até um anjo com asas metálicas arrebatam o público noite após noite.