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A Síndrome de Asperger no livro “Passarinha”

“No mundo de Caitlin tudo é preto ou branco. As coisas são boas ou más. Qualquer coisa no meio do caminho é confuso. Essa é a máxima que o irmão mais velho de Caitlin sempre repetiu. Mas agora Devon está morto e o pai não está ajudando em nada. Caitlin quer acabar com isso, mas como uma menina de onze anos de idade, com síndrome de Asperger ela não sabe como. Quando ela lê a definição de encerramento ela percebe que é o que ela precisa. Em sua busca por ele, Caitlin descobre que nem tudo é preto ou branco, o mundo está cheio de cores, confuso e bonito.”

Você já ouviu falar sobre a Síndrome de Asperger? Como uma criança autista lida com a dor da perda e convive com preconceito? As respostas para essas e algumas outras perguntas você pode encontrar no livro “Passarinha”, da escritora Kathryn Erskine, que conquistou 15 premiações e, inclusive, o National Book Awards, em 20105.

De uma maneira envolvente e com uma linguagem simbólica, o que permite múltiplas interpretações em alguns momentos do romance, você acaba sendo levado ao mundo de Caitlin. A pequena personagem tem dez anos de idade, é autista, portadora da síndrome de Asperger e acaba de perder seu irmão, Devon, em um massacre ocorrido em sua escola.

Pode parecer que estamos lidando com uma situação difícil e que um clima mórbido irá tomar conta da história, mas não é isso que acontece. Da maneira mais sútil e delicada que alguém imagina ser possível fazer, a autora vai apresentando o desenrolar da história de Caitilin e vamos acompanhando seus momentos de descoberta, seus conflitos pessoais como a descoberta de um novo amigo e o convívio com o seu pai após o falecimento do seu irmão e a superação de seus medos e anseios.

“Passarinha” é um livro tocante e é impossível não se apaixonar pela pequena Caitilin. Ao chegar no desfecho da história, consegui captar o sentido e descobri junto com a adorável passarinha, que com um enorme finesse é possível chegar a vivência da conclusão emocional de uma situação de vida difícil.

passarinha

Livro: Passarinha (Mockingbird)
Autor(a): Kathryn Erskine
Editora: Valentina
Páginas: 224

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“Felicidade para Humanos” – Afinal, o que é felicidade?

Lidar com situações onde é evidente a complexidade das relações humanas sempre é algo que chama atenção e traz alguns momentos reflexivos. Imagine ler sobre a busca por um relacionamento ideal acompanhado de um amigo que é nada mais nada menos uma inteligência artificial em desenvolvimento?

O livro “Felicidade para humanos” apresenta a história da Jen, uma mulher de trinta e quatro anos que acabou de terminar um relacionamento, e a sua relação com o Aiden, um programa de computador que está sendo desenvolvido pela empresa onde ele trabalha. Recém solteira e passando por um dos momentos mais tristes da sua vida, Jean vai contar com apoio do seu programa de computador para seguir a sua vida. Leia mais

A (falta de) representatividade negra em “A Casa das Sete Mulheres”

Logo no início da minha leitura de “A Casa das Sete Mulheres”, expressei meu descontentamento no instagram: a pouca representatividade dos personagens negros me incomodou muito, provavelmente porque contrastou com o tipo de leitura que tenho feito ultimamente. Considerei todos os comentários que recebi na postagem, e as quase 500 páginas do livro me deram tempo e material suficientes para estruturar melhor a minha opinião. Agora, terminada a leitura, parte do meu descontentamento permanece. E eu gostaria de saber o que vocês têm a dizer sobre isso.

IMPORTANTE: Estas minhas divagações dizem respeito apenas ao primeiro livro da trilogia. Depois que eu ler os outros poderei atualizar minha opinião sobre o assunto (e espero que ela tenha motivos para mudar).

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“A Montanha Mágica” – Magnum Opus da enfermidade

Em 1912 Thomas Mann, escritor filho de mãe brasileira e pai alemão, visitou sua esposa em Davos, na Suíça, que estava internada num sanatório para tratar a sua tuberculose. A partir dessa curta visita foi plantada a semente de um dos maiores monumentos literários do séc. XX: “Der Zauberberg” ou, em belo português, “A Montanha Mágica”.

Centrada na mesma cidade, a história é considerada por muitos críticos literários como um bildungsroman (do alemão “romance de formação”, obra literária que foca nos anos de educação e formação do protagonista), já outros consideram-na uma paródia do gênero. A obra em si desafia qualquer definição que lhe é atribuída, tanto pela magnitude de assuntos abarcados (vida e morte, tempo, doença, amor, arte e política), quanto pela linguagem carregada de referências clássicas e ironia. O sanatório, localizado na Suíça, é utilizado como lente para examinar o microcosmos do zeitgeist europeu. Leia mais

Minotauro: O mito grego atualizado + SORTEIO

A primeira vez em que falei sobre “Minotauro” aqui no Literasutra foi em 2015, em uma resenha muito impressionada. Hoje, 3 anos depois, a sensação se mantém. Eu reli o romance do israelense Benjamin Tammuz e dessa vez fiz uma análise em vídeo. Assista abaixo:

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“Minotauro”
Autor: Benjamin Tammuz
Editora: Rádio Londres
Páginas: 189
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Wild Cards #2 (Ases nas Alturas), George R. R. Martin

Enfim, as fichas de personagens foram preenchidas e agora só falta mestrar! Estou falando de Wild Cards, o universo de super-heróis/ficção científica originado de um RPG mestrado por George Martin. Em seu segundo livro, “Ases nas Alturas”, a série mostra que já fez as honras e não pretende perder tempo com formalidades. Em outras palavras, este livro é completamente diferente do primeiro. Leia mais

Elas por Elas – “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood

Um belo dia, a Monalisa me repreendeu na Livraria da Travessa por não conhecer “O Conto da Aia”. Olhei o livro e achei a capa feia. Um ano e uma série aclamada pela crítica depois, achei melhor ler o livro, e o que encontrei foi uma narrativa poderosa o suficiente para fazer homens sentirem o peso do machismo.

Veja a resenha da Monalisa no vídeo abaixo:

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O Céu e o Inferno dos Blogs Literários – SoSeLit #1

As ondas vem, as ondas vão. A prova morta-viva disso é a pochete. Meus pais tiveram uma. Passei a infância testemunhando a deterioração daquela bolsinha preta de couro onde meu pai guardava dinheiro e depois eu passei a guardar algumas moedas que encontrava atrás do sofá. Mas quem diria, elas voltaram com força para a moda do verão. A pochete preta de couro ganhou primas distantes, feitas de todos os formatos, cores e níveis brilho. Mas esse texto não é sobre elas. É sobre os blogs literários que, se fossem pochetes, estariam na fase de deterioração, aguardando pacientemente o seu novo tempo de glória.

Houve uma época em que blogs eram a grande hype, e talvez alguns poucos ainda tenham sua parcela de público fiel. Mas a forma de consumir conteúdo mudou, em grande parte graças às redes sociais. A oferta do que ler e assistir é gigantesca, as timelines são um vórtice fragmentado de atenção, e os blogs… bem, os blogs não vão nada bem, obrigado. Especificamente no caso dos que falam sobre livros, então, estes foram substituídos pelos canais literários no youtube.

Eu mesma, atrás de público disposto a ouvir o que aprendo com minhas leituras (que são muitas), migrei (talvez de forma vergonhosa) para o youtube. Mas conforme disse no início:  aquilo que vai às vezes volta. E aparentemente nós estamos de volta ao Literasutra. É possível combinar os dois mundos, canal e blog, desde que se tenha uma equipe com a qual se possa contar. E atualmente tenho duas: a primeira é formada pelos colaboradores atuais do Literasutra, e a segunda pelos blogs participantes da Sociedade Secreta Literária, um grupo de apoio e blogagem coletiva.

Em outras palavras, trabalhamos ansiosos para que os blogs sigam o exemplo das pochetes e retornem com todos os formatos e cores possíveis. ❤

Leia a fanfic de Harry Potter escrita por um robô — em português

Sim, você leu o título certo. “Harry Potter e o Retrato que Parece uma Grande Pilha de Cinzas” foi escrito por um robô, especificamente um bot da empresa Botnik Studios. O processo foi aparentemente simples: foi criada uma base de dados com todos os livros da série escritos por J.K. Rowling. Mas o resultado vai muito além do esperado. O robô provou ter uma imaginação muito mais fértil — e certamente mais problemática — que a autora original. Confira a tradução abaixo:

“Harry Potter e o Retrato que Parece uma Grande Pilha de Cinzas”

O lindo

As terras do castelo rosnavam com uma onda de vento magicamente ampliada. O céu lá fora era um grande teto preto, cheio de sangue. Os únicos sons que vinham da cabana de Hagrid eram os gritos desdenhosos de seus próprios móveis. Magia: era algo que Harry Potter achava muito bom.
Folhas de chuva de couro amarraram o fantasma de Harry enquanto ele caminhava pelo terreno em direção ao castelo. Rony estava de pé ali e fazendo uma dança de torneira gentil e frenética. Ele viu Harry e imediatamente começou a comer a família Hermione.
O short de Rony de Rony era tão ruim quanto o próprio Rony.
“Se vocês dois não conseguem se amontoar felizes, eu vou ficar agressiva”, confessou Hermione razoavelmente.
“E a magia de Rony?”, ofereceu Rony. Para Harry, Rony é um pássaro alto, lento e macio. Harry não gostava de pensar em pássaros.
“Os Comensais da Morte estão no topo do castelo!” Rony tremeu. Rony seria uma aranha. Ele simplesmente seria. Ele não estava orgulhoso disso, mas seria difícil não ter aranhas em todo o corpo depois de tudo ser dito e feito.
“Olhe”, disse Hermione. “Obviamente, há montes de Comensais da Morte no castelo. Vamos ouvir o que eles dizem.”
Os três amigos correram pela porta para o telhado do castelo. Eles quase pernaram, mas as bruxas não estão subindo. Ron olhou para a maçaneta da porta e então olhou para Hermione com uma dor abrasadora.
“Eu acho que está fechado”, ele notou.
“Bloqueado”, disse o Sr. Escadaria, o o fantasma malhado. Eles olharam para a porta, gritando sobre o quão fechada ela estava e pedindo que fosse substituído por um pequeno orbe. A senha era “MULHER DE CARNE”, gritou Hermione.
Harry, Ron e Hermione ficaram silenciosamente atrás de um círculo de Comensais da Morte que pareciam muito maus.
“Eu acho que está bem, você gosta de mim”, disse um Comensal da Morte.
“Muito obrigado”, respondeu o outro. O primeiro Comensal da Morte teve confiança para plantar-lhe um beijo na bochecha.
“Oh! Bem feito!” disse o segundo enquanto seu amigo recuou. Todos os outros Comensais da Morte apontaram educadamente. Todos eles levaram alguns minutos para examinar o plano para se livrar da magia de Harry.
Harry podia sentir que Voldemort estava logo atrás dele. Ele teve uma grande reação exagerada. Harry tirou os olhos de sua cabeça e os jogou na floresta. Voldemort ergueu as sobrancelhas para Harry, que não podia ver nada no momento.
“Voldemort, você é um mago muito ruim e malvado”, Harry disse com brutalidade. Hermione assentiu encorajadoramente. O grande Comensal da Morte estava usando uma camisa que dizia “Hermione esqueceu como dançar”, então Hermione mergulhou o rosto na lama.
Ron jogou uma varinha em Voldemort e todos aplaudiram. Ron sorriu. Rony alcançou sua varinha lentamente.
“Ron é o bonito”, murmurou Harry enquanto ele relutantemente alcançava a varinha. Eles lançaram um feitiço ou dois, e jatos de luz verde dispararam das cabeças dos Comensais da Morte. Ron estremeceu.
“Não tão bonito agora”, pensou Harry enquanto ele mergulhou Hermione no molho de pimenta. Os Comensais da Morte estavam mortos agora, e Harry estava mais apavorado do que nunca.

O Grande Salão estava cheio de incríveis lustres e um grande bibliotecário que tinha decorado as peles com livros sobre alvenaria. Montanhas de ratos explodiram. Várias calabresas longas caíram de McGonagall. O cabelo de Dumbledore passou por Hermione quando Dumbledore chegou na escola.
O porco de Hufflepuff pulsava como uma grande rã-touro. Dumbledore sorriu e colocou a mão na cabeça: “Você é Hagrid agora”.
“Nós somos as únicas pessoas que importam. Ele nunca vai se livrar de nós”, Harry, Hermione e Ron disseram em coro.

O chão do castelo parecia uma grande pilha de magia. Os Dursleys nunca estiveram no castelo e não estavam prestes a chegar lá em “Harry Potter e O retrato do que parecia uma grande pilha de cinzas”. Harry olhou ao redor e depois caiu na escada em espiral para o resto do verão.
“Eu sou Harry Potter”, Harry começa a gritar. “As artes das trevas devem ficar preocupadas! Ah, garoto!”

“Me Chame Pelo Seu Nome” – Sutil e Poderoso

Na Itália dos Anos 80, um rapaz de 17 anos vê chegar o novo hóspede da família: um estudante americano que transforma o marasmo das férias de verão. Este é “Me Chame Pelo Seu Nome” (“Call Me By Your Name”, 2017, USA), mas sua sinopse não representa mais que a superfície. Aparentemente apenas mais uma obra sobre a descoberta do primeiro amor, o filme é, na verdade, um manifesto pelo direito de sentir a vida plenamente.

Baseado no romance de estreia do egípcio André Aciman, o filme está sendo cotado como forte candidato para o Oscar 2018. E não é por acaso. Tudo nele — dos mais simples (porém poderosos) diálogos à fotografia que faz desejar o próximo voo para o sul da Itália — tudo conspira a favor de um filme que beira a perfeição.

E por falar em diálogos poderosos, merece destaque a cena final entre pai e filho, que traz à tona o grande propósito da obra: quem tem medo de se entregar aos sentimentos uma hora acaba esquecendo-os de vez.

“Me Chame Pelo Seu Nome” tem trilha sonora digna de playlist no Spotify, com canções de Sufjan Stevens. A direção e atuação exemplares dão vida a personagens marcantes, muito bem construídos e desenvolvidos. Além disso, é um filme que transborda sensualidade sem apelar para o erótico. Sutil, significativo e inspirador: três adjetivos que o representam.

Assista ao trailer abaixo: