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“Me Chame Pelo Seu Nome” – Sutil e Poderoso

Na Itália dos Anos 80, um rapaz de 17 anos vê chegar o novo hóspede da família: um estudante americano que transforma o marasmo das férias de verão. Este é “Me Chame Pelo Seu Nome” (“Call Me By Your Name”, 2017, USA), mas sua sinopse não representa mais que a superfície. Aparentemente apenas mais uma obra sobre a descoberta do primeiro amor, o filme é, na verdade, um manifesto pelo direito de sentir a vida plenamente.

Baseado no romance de estreia do egípcio André Aciman, o filme está sendo cotado como forte candidato para o Oscar 2018. E não é por acaso. Tudo nele — dos mais simples (porém poderosos) diálogos à fotografia que faz desejar o próximo voo para o sul da Itália — tudo conspira a favor de um filme que beira a perfeição.

E por falar em diálogos poderosos, merece destaque a cena final entre pai e filho, que traz à tona o grande propósito da obra: quem tem medo de se entregar aos sentimentos uma hora acaba esquecendo-os de vez.

“Me Chame Pelo Seu Nome” tem trilha sonora digna de playlist no Spotify, com canções de Sufjan Stevens. A direção e atuação exemplares dão vida a personagens marcantes, muito bem construídos e desenvolvidos. Além disso, é um filme que transborda sensualidade sem apelar para o erótico. Sutil, significativo e inspirador: três adjetivos que o representam.

Assista ao trailer abaixo:

De Neil Gaiman a Machado de Assis: O que assistir no Festival do Rio?

O Festival do Rio de 2017 já tem data marcada: de 5 a 15 de outubro o Rio de Janeiro sediará mais uma edição do festival de cinema, exibindo filmes de mais de 60 países diferentes. Para te ajudar a montar uma programação infalível, o Literasutra fez uma lista de filmes que tratam sobre o universo literário. Divirta-se!

Assista abaixo vídeo com dicas de filmes baseados em livros que serão exibidos durante o festival:

ROBERTO BOLAÑO: A BATALHA FUTURA CHILE (Roberto Bolaño: La batalla futura Chile)
de Ricardo House. Chile / Espanha, 2016. 63min.
Roberto Bolaño foi considerado por seus pares o mais importante autor latino-americano de sua geração. Seu romance póstumo 2666, lançado originalmente em 2004, é considerado sua obra máxima, tendo sido altamente aclamado pela crítica especializada desde então. Este é um olhar atento sobre o prestigiado escritor e a turbulência provocada por seu estranho relacionamento com o Chile, seu país de origem, retratando-o através de seus amigos, sua ironia e seu gênio, com um importante material de arquivo inédito e entrevistas gravadas no México, Espanha e Chile.

KARINGANA — LICENÇA PARA CONTAR
de Monica Monteiro. Com Maria Bethânia, José Eduardo Agualusa, Mia Couto. Moçambique / Brasil, 2017. 73min.
Maria Bethânia leva pela primeira vez o seu ensaio poético até Moçambique. A intérprete apresenta trechos de obras conectadas com diferentes formas de expressão em língua portuguesa. Com depoimentos de Mia Couto, José Agualusa e de diversos escritores e críticos de Moçambique e Angola, o documentário apresenta o desenvolvimento da literatura nos dois países, tratando de sua importância na resistência à colonização, a conexão com os idiomas nativos, as tradições orais e a influência de escritores brasileiros.

CARTAS PARA UM LADRÃO DE LIVROS
de Carlos Juliano Barros, Caio Cavechini. Brasil, 2017. 96min.
Laéssio Rodrigues de Oliveira é considerado pelas autoridades o maior ladrão de livrosraros do Brasil. Não é uma trajetória comum a do jovem balconista de padaria, obcecado por papéis antigos, que passa a frequentar altas rodas de colecionadores de arte e, depois, os cadernos policiais. Mas a decisão de contar essa história gera dilemas para os quais nem Laéssio nem o próprio documentário estavam preparados. Ainda que por caminhos tortos, Laéssio evidencia a necessidade de o Brasil cuidar de sua própria história.

SLAM: VOZ DE LEVANTE
de Tatiana Lohmann, Roberta Estrela D’Alva. Brasil, 2017. 97min.
Plateia, poetas, poemas próprios e jogo de cintura: essa é a formula dos Poetry Slams, campeonatos performáticos de poesia falada que vêm se espalhando pelo Brasil. Nascidos em Chicago, eles fomentam a organização das comunidades em torno do encontro, da livre expressão e da escuta. O filme testemunha o crescimento da cena brasileira desde 2008, viaja às origens nos EUA e acompanha a campeã brasileira de 2016, Luz Ribeiro, até a Copa do Mundo de Slam em Paris, representando a nova onda feminista e negra que tem se firmado pela virulência poética do verbo politizado.

A VENDEDORA DE FÓSFOROS (La vendedora de fósforos)
de Alejo Moguillansky. Com María Villar, Walter Jakob, Helmut Lachenmann, Margarita Fernandez, Cleo Moguillansky. Argentina, 2017. 70min.
A pequena vendedora de fósforos, personagem do conto do autor dinamarquês Hans Christian Andersen, morre de frio na véspera do Ano Novo. O burro Balthazar, de Robert Bresson, muda de dono de tempos em tempos, até ter um fim trágico. A impossível reconciliação entre um soldado alemão e uma delicada pianista argentina que toca sem encostar nas teclas. Helmut Lachenmann tenta montar uma ópera no Teatro Colón durante a greve de transportes de Buenos Aires. No meio disso, Marie e Walter tentam sustentar sua filha com o salário irrisório que a música lhes proporciona.

VIDA EM FAMÍLIA  (Vida de Familia)
de Alicia Scherson, Cristian Jimenez. Com Jorge Becker, Gabriela Arancibia, Blanca Lewin, Cristián Carvajal. Chile, 2017. 80min.
Bruno e sua família deixam sua casa no Chile para uma viagem de três meses pela França. Durante sua ausência, é Martín, primo de Bruno, que ficará no comando da casa e do gato da família. O animal desaparece e Martín conhece Pachi, por quem rapidamente se apaixona. Para conquistá-la, ele inventa que a casa é dele, que tem um filho, mas está divorciado. A versão de sua nova vida faz sucesso com Pachi, mas como ele dará conta de bancá-la quando a realidade voltar de férias? Baseado em um conto de Alejando Zambra, adaptado pelo próprio autor.

UNICÓRNIO
de Eduardo Nunes. Com Barbara Luz, Patrícia Pillar, Zécarlos Machado, Lee Taylor. Brasil, 2017. 123min.
Maria, uma menina, está sentada num banco ao lado de seu pai. A conversa que eles têm ali conduz a narrativa do filme: acompanhamos a história na rústica casa de campo, onde ela mora com a mãe e onde as duas aguardam a volta deste mesmo pai. A relação entre Maria e a sua mãe muda com a chegada de um outro homem. Baseado em dois contos de Hilda Hilst, “Matamoros” e “Unicórnio”.

YOGA ARQUITETURA DA PAZ (On Yoga the Architecture of Peace)
de Heitor Dhalia. Com Deepak Chopra, Sadhu Vijay Giri, Dr. Dean Ornish, Nevine Michaan. Brasil / Estados Unidos / Índia / China, 2017. 87min.
Baseado no livro homônimo do fotógrafo Michael O’Neill, este documentário conta a história dos dez anos em que o autor fotografou os grandes mestres da ioga. Criado como uma profunda extensão do livro original, o filme aborda questões muito humanas da nossa perspectiva atual, misturando-as com elementos de movimento e som experienciais, resultando em uma nova visão da arte da ioga.

EX LIBRIS: BIBLIOTECA PÚBLICA DE NOVA YORK (Ex Libris : New York Public Library)
de Frederick Wiseman. Com . Estados Unidos, 2017. 197min.
Depois de mais de 50 anos voltando seu olhar documental para as instituições da sociedade norte-americana, o cineasta Frederick Wiseman (Crazy Horse, Em Jackson Heights) dedica seu novo filme a uma de suas maiores paixões, os livros, através deste retrato íntimo da New York Public Library e seus frequentadores. Entre aulas de braile, encontros de clubes de livro, coquetéis para levantamento de fundos e reuniões administrativas, Wiseman observa as muitas camadas de uma complexa metrópole.

SEVERINA
de Felipe Hirsch. Com Carla Quevedo, Javier Drolas, Alejandro Awada, Alfredo Castro.. Brasil, 2017. 103min.
A vida de um livreiro, melancólico e aspirante a escritor, é abalada por uma enigmática mulher que rouba em sua livraria. Logo ele se enreda no mistério de um amor delirante e obsessivo. Este filme é uma sondagem do efeito alienante do amor e do poder libertador do perdão. Baseado na obra de Rodrigo Rey Rosa.

A COMÉDIA DIVINA
de Toni Venturi. Com Murilo Rosa, Monica Iozzi, Dalton Vigh, Juliana Alves, Thiago Mendonça. Brasil, 2017. 98min.
Abalado por sua baixa popularidade, o Diabo resolve vir à Terra fundar sua própria igreja. Os pecados são virtudes e devem ser estimulados. Utilizando a televisão, o Coisa Ruim potencializa seu poder de sedução para difundir a nova religião. Raquel, uma jovem e ambiciosa jornalista, é uma das primeiras a cair sob seu domínio. Baseado no conto “A Igreja do Diabo”, de Machado de Assis.

 LA VITA IN COMUNE
de Edoardo Winspeare. Com Gustavo Caputo, Antonio Carluccio, Claudio Giangreco, Celeste Casciaro, Davide Riso. Itália, 2017. 110min.
Em Disperata, uma pequena cidade no sul da Itália, o melancólico Filippo Pisanelli se sente terrivelmente incompetente em seu papel de prefeito. Somente seu amor pela poesia e sua paixão pelas leituras que faz aos detentos da região dão algum alívio a seu estado de depressão. Na prisão, ele conhece Pati, um ladrão de galinha também nascido em Disparata. O ladrãozinho e seu irmão sonhavam em se tornar os chefes da máfia de Capo di Leuca, mas o encontro com a literatura muda tudo, e uma amizade incomum surge entre os três, potencializando escolhas corajosas.

ORLANDO – A MULHER IMORTAL (Orlando)
de Sally Potter. Com Tilda Swinton, Billy Zane, Quentin Crisp. Reino Unido / Rússia / Itália / França / Holanda, 1992. 94min.
O nobre Orlando é condenado pela rainha Elizabeth I a permanecer eternamente jovem, atravessando os séculos experimentando vidas, parceiros e sentimentos. Após participar por 400 anos da história da Inglaterra como homem, Orlando volta à vida no corpo de uma mulher da nobreza. Nesta etapa de sua jornada sem fim, aprenderá sobre a vida e o amor, enquanto se aproxima mais intensamente do próprio sexo. Uma viagem onírica pela história da Inglaterra baseada no romance feminista de Virginia Woolf, com Tilda Swinton.

CONTOS DA BIRMÂNIA (Burma Storybook)
de Petr Lom. Com Maung Aung Pwint. Myanmar, 2017. 81min.
A democracia ainda engatinha em Myanmar, antiga Birmânia, país que encerrou em 2011 uma ditadura militar de 50 anos. Este documentário nos apresenta o país à luz da poesia, forma de arte muito apreciada por seus nativos, centrando-se na figura do famoso poeta e ativista Maung Aung Pwint, que passou boa parte de sua vida adulta na prisão. Hoje já em idade avançada e sofrendo da doença de Parkinson, ele sonha em se reencontrar com seu filho, que emigrou para a Finlândia 20 anos atrás. Em um admirável mundo novo, o poeta tenta responder à pergunta: “como curar nossos corações?”.

A biografia de Marina Abramovic vai te ensinar o que é arte e performance

Mesmo que você nunca tenha ouvido falar em Marina Abramovic, ela provavelmente já passou pela sua timeline. Uma mulher de vestido longo e cabelos pretos trançados está sentada, sozinha, numa cadeira no centro de uma roda de pessoas. De repente, um homem se aproxima e senta-se na cadeira que está à sua frente, e a cena que segue emociona não somente o casal, mas todas as pessoas que assistiram e compartilharam o vídeo incessantemente nas redes sociais. O vídeo em questão é um trecho do filme “Marina Abramovic — A artista está presente”, que documentou a exposição da artista sérvia realizada em 2010 no MoMa de Nova Iorque. O homem cuja aparição a emociona é Ulay, que durante 12 anos foi seu companheiro e parceiro de performances.

“É incrível como o medo é embutido em você, por seus pais e por outras pessoas que o cercam. Você, no início, é tão inocente. Você não sabe.”

Esta e outras histórias envolvendo a artista, reconhecida por muitos como “a avó da performance” devido aos quase 50 anos de atividade e também ao pioneirismo e representatividade dentro da arte performática, estão relatadas no livro “Pelas Paredes — Memórias de Marina Abramovic”.

“Eu havia vivenciado a liberdade absoluta, tinha sentido que meu corpo não possuía fronteiras, era sem limites. Que a dor não importava, que absolutamente nada importava. E isso foi empolgante”.

 

Publicado em 2017 pela editora José Olympio, “Pelas Paredes” conta a trajetória profissional de Marina, mas sem deixar de lado os aspectos pessoais. A criação rígida no pós-guerra da Iugoslávia; o controle abusivo da mãe, que mesmo depois de adulta lhe ditava toques de recolher; o seu senso de humor típico do sudeste europeu. Por meio de texto e também de imagem — a edição contém páginas especiais com fotografias coloridas, além das imagens em preto e branco que ilustram algumas passagens de texto — o livro tem dupla serventia: por trás da biografia está, nas entrelinhas, o significado da arte da performance. E tudo isso faz de “Pelas Paredes” a leitura perfeita para tempos como os de hoje, no qual a nudez de um artista lhe basta para ser acusado de pedofilia. E é por isso que você precisa ler este livro.

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PARTICIPE: Leitura coletiva de “Esse Cabelo”

Conheci Djaimilia Pereira de Almeida durante uma mesa redonda na FLIP 2017. Foi um primeiro contato muito emocionante, e agora me preparo para mais uma dose de emoção: dos dias 9 de outubro a 9 novembro será realizada no Canal Literasutra uma leitura coletiva de seu primeiro romance, “Esse Cabelo”, em parceria com a Editora Leya e os blogs parceiros The Bookworm Scientist, Clã dos Livros, Cinefilando e Morando em Pasárgada.

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Saiba mais detalhes no vídeo abaixo:

Toda a discussão sobre o livro será realizada em um grupo no facebook. Clique aqui para entrar!

Vale a pena ler “O Problema dos Três Corpos”?

O motherfuckin Starboy da ficção científica, Cixin Liu, se consagrou no gênero com o livro “O Problema dos Três Corpos”. Goste ou não, o livro já é detentor de um recorde: ele foi o primeiro livro a ganhar o Prêmio Hugo (prêmio máximo da ficção científica) sem ter sido escrito em inglês. Elogios não faltam para descrever este livro, mas para cada coisa que ele faz certo, ele também faz uma errada.

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A história começa com um flashback para a Revolução Cultural de Mao Tse Tung. O exército vermelho impunha dogmas medievais nas universidades. Depois, somos transportados para o presente próximo, onde cientistas relacionados à construção de um acelerador de partículas (como o LHC) estão misteriosamente cometendo suicídio. Não bastando, um promissor cientista na área de fibras de carbono (nosso protagonista) começa a ver uma contagem regressiva sendo impressa em suas fotografias. Leia mais

Quando Neil Gaiman e Terry Pratchett se unem, o resultado é um livro que você precisa ler

Se um CD passar muito tempo dentro de um carro, ele invariavelmente se tornará um CD do Queen. (pegar trecho do livro)

Quando Neil Gaiman e Terry Pratchett decidem criar juntos uma história, surge algo como “Belas Maldições”. Publicado no início dos Anos 90 nos Estados Unidos sob o título “Good Omen”, este é um dos primeiros romances de Neil Gaiman, escrito em parceria com Terry Pratchett, antes que os dois se tornassem o que são hoje. E mesmo que a escrita de ambos já tenha amadurecido bastante desde então, a qualidade literária da obra continua sendo inegável, fazendo do livro uma ótima porta de entrada para quem deseja conhecer os dois autores de uma vez só. Pois se tem um feat que você deve respeitar incondicionalmente, esse feat é certamente Neil + Terry. Leia mais

Clube da Escrita: Primeiro Desafio

O Clube da Escrita é um projeto deste blog/canal literário que vos fala, criado com o propósito de reunir pessoas legais que querem desbloquear a criatividade e treinar a escrita. Se você nunca tinha ouvido falar sobre ele, eu recomendo que clique neste link e assista ao vídeo introdutório!

Mas se você já sabia de tudo e inclusive está participando, primeira coisa: você arrasa! Segunda coisa: chegou a hora do PRIMEIRO DESAFIO!

Você pode escrever o seu texto e guardá-lo no canto mais recôndito do seu computador ou no fundo de alguma gaveta. Mas o ideal é que compartilhe o resultado com todo mundo! E para isso é só participar do nosso grupo maravilhoso lá no Facebook (clica aqui, isso é um link, é pra clicar mesmo).

Boa sorte para todos! 🙂

Entre para o Clube da Escrita e escreva com pessoas maravilhosas

Há poucos dias criei oficialmente o Clube da Escrita. O objetivo é reunir pessoas legais que gostem de escrever e desejam treinar a escrita criativa. Em outras palavras, um grupo de apoio contra a procrastinação e o boicote (assuntos nos quais eu já poderia ter um doutorado). Durante esse pouquíssimo tempo o grupo já rendeu muito aprendizado e diversão, e ainda tem espaço para mais gente! 🙂

Se você se interessar, este vídeo explica em tudo em detalhes:

Não esqueça de se inscrever no canal e ativar as notificações para não perder nenhum desafio do clube! ❤

“O Segredo de Heap House” poderia ser um filme do Tim Burton

“Todos aqui cresceram com os montes de sujeira em volta, ao lado e dentro de si mesmos”

Escrito e ilustrado pelo inglês Edward Carey, O Segredo de Heap House (Crônicas da Família Iremonger) nos apresenta a um universo de fantasia um tanto peculiar. Heap House é a residência (mais apropriadamente chamada de casarão) da família Iremonger. Curiosamente, a casa fica no topo de uma montanha composta por objetos esquecidos (ou descartados), mais conhecidos como Cúmulos. É neste cenário que se passam as histórias de Clod, um Iremonger legítimo, e Lucy Pennant, órfã recém-chegada à mansão.

Algumas pessoas são rudes, outras são sensíveis, e Clod tem sensibilidade suficiente para lhe permitir ouvir os nomes dos objetos — não que ele esteja extremamente confortável com essa habilidade bizarra. Logo ao nascerem, os Iremonger ganham um objeto que os acompanhará por toda a vida; no caso de Clod, o objeto é um tampão de banheira cujo nome o garoto ouve muito bem o tempo todo: James Henry.

Não é preciso tempo para perceber que Edward Carey domina a arte da escrita criativa, sendo capaz de construir a narrativa de forma a agradar não somente o público juvenil (ao qual o livro se destina), mas também muitos adultos. As descrição minuciosas de objetos e personagens, por exemplo, que costumam ser mal vistas entre muitos leitores, nesta obra acabam funcionando perfeitamente. Além disso, seu humor irônico serve como uma ótima ferramenta para conduzir as críticas presentes no livro. “O Segredo de Heap House” tem todos os elementos capazes de agradar tanto aos fãs de Tim Burton quando aos de Lemony Snicket.

Uma Magia Mais Real

Eu nunca fui muito fã do gênero “fantasia”, mas me lembro de quando li “Harry Potter e a Pedra Filosofal”. Aquele mundo fictício de Londres tinha uma lógica interna que absorveu completamente a atenção de um garoto de 11 anos. Eu queria saber qual era a minha casa e minha varinha. “O Enigma de Blackthorn” te leva para uma Londres tão pitoresca quanto, mas muito mais realista. Eu prometi a mim mesmo não traçar paralelos entre o aprendiz de bruxo e o aprendiz de boticário, mas isso acabou se tornando inevitável.

Em vez de nos levar para um beco retrô, “O Enigma de Blackthorn” nos joga direto no passado: O livro se passa em Londres pouco tempo depois da Revolução Inglesa, com as tensões políticas a flor da pele. O livro faz um bom trabalho em descrever como eram a vida naquela época. A sujeira, o fedor e a medicina questionável pintam um quadro bastante preciso, e não é nada de se sentir inveja. Ainda assim, parte da graça do livro é sentir nojo de como as pessoas viviam daquele jeito.

Acompanhamos o livro pelos olhos de Christopher Rowe, um menino órfão que recebeu a sorte grande de ser patronado por um boticário: o infame Benedict Blackthorn. Quando um serial killer põe um alvo nas costas dos boticários, o jogo político da guilda dos boticários acaba escalonando, e o mestre de Christopher acaba sendo assassinado. É claro, isso não sem antes deixar pistas para seu competente aprendiz desvendar o seu caso. A história não é pra lá de original, e algumas reviravoltas nós conseguimos ver a alguns metros de distância. O elenco também não muda muito comparado à chatuba de Hogwarts (ou de qualquer monomito): o garoto obstinado, o amigo engraçado, a garota com jeito moleque, o mentor. Nenhuma obra tem copyright desses arquétipos, mas é ruim vê-los usados sem um brilho de excentricidade.

Como o título do livro já sugere, vamos ter um monte de enigmas. Nessa parte, o livro me evocou fortemente Artemis Fowl. Infelizmente, o trabalho de solução desses enigmas não é algo gracioso. O livro lhe oferece símbolos e códigos com letras e números, mas poucas vezes temos a ferramenta para decifrar o que está na nossa frente. Acabamos tendo que esperar o prodígio Christopher Rowe fazer o trabalho chato por nós. E é somente isso que é: trabalho de português. É cansativo, e dificilmente acontece um estalo de brilhantismo à la Poirot.

Apesar da narrativa não ser um ponto forte, a escrita é sólida. Descrições são precisas, sem gastar muito tempo, e conseguem pintar bem as ações. “O Enigma de Blackthorn” não vai mudar a sua vida nem fazer você querer ser um boticário, mas, para qualquer tarado no gênero, o livro proporciona alguns momentos divertidos. Não é que se trate de um livro ruim, mas não é um livro ótimo.