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Deuses NeoAmericanos

*Este texto pode conter spoilers.

O livro “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman, é um espetáculo. Lançado em 2001, ele é um exemplo de uma narrativa extremamente bem contada e envolvente que associa com precisão metafórica elementos da vida real e o sobrenatural e mágico. As melhores partes do livro, na minha opinião, são os capítulos de “Vindas à América”. Colocados em partes estratégicas do livro, aparentemente sem conexão alguma com a história corrente, eles revelam muito do universo fantástico criado por Gaiman.

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3 MIL INSCRITOS – respondendo perguntas e presenteando com livros

Para comemorar o marco de 3 mil inscritos no Canal Literasutra, fiz um vídeo respondendo as perguntas que vocês fizeram no instagram, e mais uma surpresa: presenteei as 5 pessoas mais participativas com livros, como forma de agradecimento!

Se você é um dos presenteados, envie o seu endereço completo (com cep) para o email blog.literasutra@gmail.com. 🙂

MUITO OBRIGADA A TODOS!

Overdose de Alien: “Covenant” + “Rio de Sofrimento”

Uma semana e tanto para os amantes da maior criatura parasita de humanos que a gente respeita: a estreia do filme “Alien: Covenant” coincidiu, obviamente não por acaso, com o lançamento do livro “Alien – Rio de Sofrimento”. E nesse texto você confere um combo com a crítica de ambos, com direito a pipoca e guaraná — mas os dois últimos ficam por sua conta, combinado?

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Alien – Rio de Sofrimento

É  o terceiro e último livro da expansão oficial do universo. O primeiro foi “Alien – Surgido das Sombras”, escrito por Tim Lebbon, o segundo foi “Alien – Mar de Angústia”, de James Moore, e este último ficou por conta de Christopher Golden. Ao contrário dos dois primeiros livros, situados no planeta-colônia New Galveston, “Rio de Sofrimento” se passa em Aqueronte, o mesmo planeta onde Ellen Ripley e a equipe da Nostromo encontraram o xenomorfo original. Durante o processo de terraformação do planeta, uma das expedições descobre a espaçonave alienígena que, no passado, atraiu Ripley para lá. E é exatamente esse o primeiro problema dessa história: tudo isso demora mais de 100 páginas para acontecer, o equivalente à metade do livro.

Christopher Golden falhou gravemente na tarefa de recriar o clima de tensão marcante nas histórias da franquia. E o que resta num livro de Alien quando se retira dele o suspense e o medo do desconhecido? “Rio de Sofrimento” é um livro que é metade drama humano ruim, com direito a triângulo amoroso, enquanto a outra metade fica por conta de uma chacina que não convence nem à base de muito esforço. A escrita é pobre, os diálogos são supérfluos e alguns capítulos inteiros poderiam ser facilmente cortados. E para piorar, a criação dos personagens é completamente deficiente: a icônica Ellen Ripley é jogada na narrativa sem nenhum propósito, e assim como ela tantos outros personagens vem e vão sem que a gente entenda o motivo do autor tê-los colocado ali. Tudo isto, aliado a uma construção deficiente de personagens, Tudo isso nos traz a impressão de que o livro poderia simplesmente não existir.

Alien: Covenant


O filme não desaponta. Dirigido por Ridley Scott, trata-se da sequência de “Prometheus” (2012), que começou a explorar as origens do que hoje conhecemos como Alien. Covenant é o nome da nave colonizadora que viaja pela galáxia rumo a um novo planeta, uma alternativa para a Terra. Após um problema técnico na nave, os tripulantes são acordados de suas cápsulas de hibernação pelo androide Walter (Michael Fassbender). Durante a missão de reparação da nave, descobrem uma mensagem enviada de um planeta remoto — e até então desconhecido — e decidem mudar a rota para o local em questão. Acho que não preciso dizer que esta decisão do capitão foi uma péssima ideia, preciso?

“Alien: Covenant” é uma ótima sequência dos eventos de Prometheus, acertando em cheio nas referências ao filme anterior e propondo as devidas explicações para a origem do Alien, mas sem ser didático. O filme não subestima o público e dá margem para as mais variadas conjecturas, garantindo diversão adicional mesmo após o fim. Outra coisa que me agradou muito foi a questão do poder da criação, apresentada logo na primeira cena e trabalhada de forma muito inteligente ao longo da narrativa. E o principal: todo o clima de tensão é latente, de forma que é impossível relaxar. Afinal, a qualquer momento pode pular um facehugger de debaixo da cadeira do cinema… Ou quem sabe essa respiração mais ruidosa ali atrás não tenha sido um xenomorfo à espreita?

Guardiões da Galáxia 2: O que esperar das 5 cenas pós-creditos

Saiu mais cedo do filme? Teve que meter o pé pra não pagar mais caro no estacionamento? Ou ficou até o final e não entendeu quase nada? Seja bem-vindo! Nesse texto eu te explico cada uma das CINCO cenas pós-crédito de Guardiões da Galáxia Vol. 2. (Lembrando que se você sofrer de spoilerfobia é melhor clicar aqui e escolher outra coisa para ler).

1. Kraglin e a flecha de Yondu

A primeira cena é uma extensão bacana do final imediato do filme. Com a morte de Yondu, a responsabilidade sobre a Flecha Yaka (uma das armas mais fortes das quais se tem notícia) fica nas mãos de Kraglin. O problema é que, apesar de agora ser o o comandante da nave Saqueadora, Kraglin continua sendo o desastroso de sempre. Então, na sagacidade do assovio maroto, a Flecha cadencia, cata cavaco e engata voo só para aterrissar logo depois…. no peito do Drax (logo nele?), que grita de dor. Kraglin dá o famoso golpe de joão-sem-braço e sai de perto, para evitar a fúria retaliadora sem metáforas de Drax.

2. Os Guardiões da Galáxia Raiz – ainda te amo, Nutella

Os líderes de distintos grupos de Saqueadores se reúnem na nave de Stakar (Silvester Stallone). O Rambo espacial admite que sentia saudades de reunir a galera da antiga e diz que seria uma boa roubarem algo… Eles são os Guardiões da Galáxia originais! Os Guardiões Raiz, de quando Guardiões ainda era coisa de nerd (e não mainstream, da galera que só ama o Groot). Além do Stakar (Stallone), também estão no grupo: Mainframe (dublado pela Hanna Montana Miley Cyrus), Capitão Charlie-27 (Ving Rhames), o cristalino Martinex, Aleta (ex-mulher de Stakar e interpretada pela incrível Michelle Yeoh), Krugarr (totalmente de CGI e com poderes semelhantes ao Doutor Estranho) e o falecido Yondu, que provavelmente seria substituído por Kraglin. As chances são de que a galera da velha guarda reapareça como um time em futuras aventuras da Marvel.

3. Adam Warlock – corram para as montanhas!

A Real Sacerdotisa, no melhor estilo Lady Gaga, contempla o esporro supremo galático que vai levar do Conselho dos Soberanos por todos os gastos que ela teve para acabar com os Guardiões que – adivinha? – não deram em nada. Mas ela tem uma última carta na manga, uma última criação, mais forte, mais preparada para enfrentar os Guardiões. E ela é TÃO perfeita, que a Sacerdotisa decide chamá-la de… Adam, o primeiro de sua espécie! A cena fecha o close numa espécie de sarcófago dourado cheio de fios. E ponto. Essa, caros leitores, é a primeira aparição de Adam Warlock, personagem da Marvel do tipo Apelão, de tão forte que ele é. Além de ser fabuloso, com cabelos L’oreal Paris (Thor #xatiado), ele tem poderes telecinéticos e possui uma gama incrível de habilidades, incluindo a manipulação de energia bruta e de matéria (sim, é tão bizarro quanto parece), o que permite que ele construa estruturas e elementos do nada e mude os estados de matéria. Resumindo, ele não é o tipo de cara que você quer puxar briga no bar e tem grandes chances de ele aparecer em filmes futuros.

4. Groot Adolescente – mimimi, irrimi issi quirti!

Peter Quill, o Senhor das Estrelas, entra no quarto de Groot e o encontra plantado (ba-dum-tss) jogando videogame no meio da bagunça suprema: heras, raízes, galhos e folhas caídas pra todo lado. Com isso o filme cria a licença poética de Groot já estar adulto no próximo filme, que a princípio se passaria anos depois do Vol. 2. Isto significaria um Groot em Full Planta Mode, e com todos os poderes que tinha no primeiro filme, sendo portanto um tronco difícil de derrubar (prometo parar os trocadilhos agora).

5. Stan Lee e os Vigias

A última cena pós-crédito é divertidinha, mas a princípio pouco acrescenta em qualquer história. Nela aparece o onipresente e onisciente Stan Lee, sentado num meteorito, enquanto os Vigias, cansados de ouvi-lo, decidem deixá-lo e puxar o rolé pra outro planeta. A grande sacada é que os Vigias, como o nome denuncia, são observadores de todo o Universo da Marvel, ou seja, sabem de tudo que rola nos Multiversos e na vida de cada herói e personagem da Marvel. Basicamente somos nós, só que com cabeças enormes e pupilas brancas que vivem no espaço, e com tempo e dinheiro para poder ler tudo que rola na Marvel. O filme sugere que eles ficam sabendo de tudo através do próprio Deus criador da Marvel, Stan Lee, falando diretamente com ele.

Um detalhe legal que rola durante os créditos é a primeira aparição oficial do personagem do Jeff Goldblum (o eterno Iam Malcolm de Jurassic Park), uma espécie de líder intergaláctico que será importante em Thor: Ragnarok. Ele aparece brevemente dançado ao som do (excelente) sucesso “Surrender” da banda Cheap Trick.

Ao fim fica aquela já conhecida sensação de quero mais, e isso a Marvel sempre soube criar muito bem. Agora é esperar pra ver o Ragnarok em Asgard.

“O casal que mora ao lado” não convence

“As pessoas são capazes de qualquer coisa”, diz a capa do thriller policial da escritora canadense Shari Lapena. De fato, esta frase diz muito sobre o livro em questão. Publicado recentemente no Brasil pela Editora Record, “O casal que mora ao lado” parte do sequestro de uma bebê para abordar questões como a ganância e o egoísmo. Mas o que começa de forma promissora acaba se perdendo em meio a personagens mal justificados e situações forçadas. Uma pena.

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Filme: Guardiões da Galáxia Vol. 2

Quando a Marvel anunciou que lançaria um filme sobre a sua série “Guardiões da Galáxia” todos ficaram levemente incrédulos. Afinal, apesar de ser uma série amada pelos fãs não trata-se de um dos carros-chefes do estúdio como “X-Men”, “Homem-Aranha” ou “Vingadores”. Mas assim que o filme saiu surpreendeu todos os céticos revelando-se um verdadeiro hit do MCU.
Ao contrário do primeiro filme, “Guardiões da Galáxia Vol. 2” já era aguardado com as expectativas altas e, honrando seu legado, não desaponta. Se o mote do primeiro era sobre a reunião dos personagens principais, o mote do segundo é sobre a união desses mesmos personagens sendo testada. “Ohana” quer dizer “família”, e “família” é a palavra-chave que está no coração da história desse filme.

Só a escolha do título do filme já revela muito sobre seu conteúdo: o termo “volume 2” faz referência não só à fita que Starlord (Chris Pratt) recebeu de presente de sua mãe quando criança, símbolo de sua conexão com a Terra e suas questões com figuras parentais, mas também nos traz a imagem de pegar o segundo volume de uma HQ empoeirada na estante para devorá-la. O diretor James Gunn faz um ótimo trabalho adaptando um universo de comics para a linguagem cinematográfica, tarefa mais difícil do que damos crédito.

O plot gira em torno do reencontro de Starlord com seu pai Ego (Kurt Russel) e seu conflito com sua grande questão de abandono pelo mesmo. No desenrolar da narrativa a equipe dos Guardiões se separa em grupos e cada personagem acaba lidando com suas questões pessoais mais profundas e seus problemas de relacionamento. Comparado ao primeiro filme podemos dizer que seu predecessor é mais denso, mergulhando no passado dos personagens e aprofundando-os. O filme disseca a relação de Gamorra (Zoe Saldana) e sua irmã Nebulosa (Karren Gillian) e chega até a explorar mais a história de Rocket Raccoon, dublado por Bradley Cooper, Drax e Yondu (Michael Rooker). Também temos personagens novos como Mantis (Pom Klementieff) apresentados, porém mais usados como plot devices do que personagens propriamente relacionáveis. Por vezes o ritmo do filme acaba prejudicado um pouco ao tentar acompanhar os diferentes arcos sendo desenvolvidos até o momento em que convergem para o último ato, que culmina numa grande batalha com todas as marcas registradas de um finale dos filmes da Marvel.

Gunn tem um cuidado especial ao incluir as músicas da trilha sonora, um dos elementos mais explorados na franquia, diretamente no roteiro, escolhendo dessa vez músicas menos conhecidas, mas que se encaixam perfeitamente ao contexto das cenas. Canções como “Brandy (You’re a Fine Girl)” do Looking Glass, “Mr Blue Sky” da Electric Light Orchestra e a comovente “Father and Son” de Cat Stevens conseguem conduzir o espectador por momentos de nostalgia, imersão histórica, tensão e catarse.

Visualmente o filme evoca aquelas fotografias colorizadas pela NASA tiradas pelo Hubble: há uma pletora de explosões de cores, luzes, planetas e criaturas vibrantes do início ao fim. Apesar de muitos planetas interessantes serem apresentados infelizmente eles são poucos explorados, sendo o foco maior no planeta de Ego, que parece ter saído de uma capa de álbum de uma banda de prog rock dos anos 70. O planeta é visualmente maravilhoso, mas aparentemente vazio, o que parece ser uma escolha proposital levando-se em conta os plot twists do filme.
O filme é recheado de referências e aparições, além de abusar (talvez até demais) dos elementos que mais agradaram o público no primeiro filme. Coisas como o apelo do carismático Baby Groot, dublado por Vin Diesel, e o humor exacerbado e sem tato de Drax (Dave Bautista), por exemplo, são tão exacerbados ao longo do longa que beira ao cansaço, mas o diretor consegue não perder a mão no fan service.

Como era de se esperar, Guardiões da Galáxia Vol. 2 é carregado de ação e humor, tendo também uma história mais densa e alguns momentos dramáticos. Não pude deixar de notar certos traços de Star Wars no tom do filme, principalmente do Episódio IV e de “O Império Contra-Ataca”. O final do filme, mesmo carregado de ação, é bem comovente levando-se em conta o desenvolvimento de tantos personagens queridos pelo público. O Vol. 2 não consegue superar seu predecessor em quesitos como ritmo e roteiro, mas não deixa de ser uma experiência divertida e bem trabalhada nos seus visuais e em sua trilha sonora.

Filme: “Vida”

Particularmente amo filmes de terror. Mais do que mero entretenimento, eles podem dizer muito sobre os medos e as expectativas da sociedade que os produz e consome. Por exemplo: na década de 50 o maior medo do norte-americano médio era a bomba atômica. Em meio a Guerra Fria e conflitos na Coreia, esse temor se refletia em filmes de terror cujos antagonistas eram forças destrutivas que não podiam ser paradas na forma de aliens, bolhas gigantes misteriosas e seu maior expoente: o monstro japonês Godzilla, vingança da natureza em resposta à destruição atômica. Na virada do séc. XX para o séc. XXI o maior medo dos yankees passou a ser o terrorismo, cujos agentes operam se infiltrando discretamente em grandes centros populacionais (onde fazem mais estragos) e quase sempre são identificados tarde demais. Nesse período temos o boom de filmes e videogames sobre zumbis, cujo vírus letal atua como essas células terroristas.

Esse medo impera até hoje, com pequenas variantes: o medo de imigrantes, eufemismo para xenofobia. Em uma nação atualmente obcecada com barreiras e com medo de estrangeiros invadindo o país para “roubar seus empregos e recursos” não seria exagero fazer um paralelo com o filme “Vida”, dirigido por Daniel Espinosa. O filme segue a escola Alien de terror sci-fi, tendo todos os elementos clássicos do gênero: um elenco etnicamente diverso, isolação em um ambiente hostil (espaço) e um elemento desconhecido e potencialmente perigoso. O plot gira em torno de um grupo de astronautas em uma missão no espaço para estudar solo marciano acidentalmente descobrindo uma forma de vida unicelular nas amostras de solo, respondendo a uma das perguntas mais antigas da humanidade. Leia mais

Grandes Poderes

Ficção científica sempre foi um cunho forte da literatura. Muitas vezes servindo como matéria prima de filmes, as melhores histórias sobre o futuro estão lá. “Gigantes Adormecidos” do novato Sylvain Neuvel intriga e parece aspirar vôos semelhantes aos de Phillip Dick e Arthur Clarke.

Muitos anos atrás, enquanto passeava de bike no seu aniversário, uma garotinha caiu em uma estátua de mão gigante. Avançando para o presente, outras partes do corpo foram descobertas pelo mundo, e a mesma criança que caiu na mão, hoje chefia as pesquisas de montagem e compreensão do Megazord.

Embora a premissa seja muito promissora, o livro faz uma curva drástica para o melodrama. Logo logo, o foco muda para as relações pessoais dos membros da equipe. A fofoca de escritório até intriga, mas a impressão que passa é que temos problemas maiores para cuidar. Quando volta ao foco, aí sim o livro fica interessante. Ele discorre sobre a ética do poder com a perspectiva de um poder devastador enquanto tece redes de intriga internacional. O payoff nunca chega bem aos pés do suspense proposto, mas a estrada até ele diverte.

Gigantes é um romance epistolar: para quem não sabe o que é isso, quer dizer que ele é contado através de documentos em vez de um narrador propriamente dito. Mais precisamente, parece uma versão em livro da estrutura de “Chronicle” ou “Guerra Sem Cortes”. Na maioria das vezes a fórmula funciona bem. Os diálogos dos depoimentos são divertidos e faz a leitura passar num piscar de olhos. A única hora em que a tática deixa transparecer debilidades são em cenas “ao vivo”. Nesses casos, frases como “subindo…subindo…” ou “mexe,mexe,mexe” parecem irrealistas além de expositivas. O mesmo problema não acontece com as descrições, que se tratando de objetos desconhecidos, é bem importante.

Acompanhamos a grande parte desses relatos como um entrevistador misterioso, o personagem mais interessante do livro. Ele faz um tipão “Homem de Preto”, cheio de contatos e não seguindo as próprias regras. Além dele, os únicos personagens dignos de nota são a pilota militar Kara Resnik e o linguista Vincent Couture.

Alguns tropeços impedem que “Gigantes Adormecidos” se torne uma obra prima do gênero. Mesmo assim, é um livro fácil de recomendar. Uma premissa tão boa excelentemente aproveitada, o livro é tudo que você pode esperar dele e ainda consegue trazer algumas surpresas. Se você ficou encantado com a capa deste livro, acredite, o conteúdo é tão bom quanto.


“Gigantes Adormecidos”

Autor: Sylvain Neuvel
Editora: Suma de Letras
Páginas: 328

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Os prazeres que a dor me traz

Já faz muito tempo que não choro enquanto minha mãe passa merthiolate no meu joelho ralado. Primeiro porque eu não ralo o joelho há muito tempo; segundo porque, mesmo que ralasse, eu mesma faria o curativo e merthiolate não arde mais. Em outras palavras, já fazia muito tempo que eu não tinha um machucado que fica doendo por vários dias (cólicas menstruais não entram no pacote). Até que, depois de muita procrastinação, eu tomei a vacina contra a febre amarela.

Era uma sala pequena de pouco espaço para muita gente. Três enfermeiras na triagem, três pessoas sentadas apreensivas na frente delas, dois adultos sem função definida mas que mesmo assim conversavam muito alto a respeito do jogo Flamengo e Vasco, duas mães e um pai com seus respectivos filhos que gritavam muito alto a respeito das seringas que dois enfermeiros preparavam. E eu. Eu estava tranquila, apesar de confusa com o barulho.

Depois que as crianças saíram, e ainda bem que saíram, eu estendi o meu braço e fui vacinada. Resultado: é sempre bom saber que você já pode viajar sem medo de pegar febre amarela, mesmo que isso não passe de uma compensação ilusória já que você (se estiver em situação financeira semelhante à minha) não concretizará viagem nenhuma. Aliás, o meu braço está doendo, e isso me faz lembrar de que eu gostaria de dar um recado especial para a mulher que me apontou para a filha e disse:

“Viu, amor? Não dói! A menina tá tomando vacina sozinha e não tá chorando!”

Para essa mulher eu preciso dizer que o meu braço está doendo, sim. Até agora. E eu tenho 27 anos, moça, que isso.

E daí aqui estou eu, segurando uma compressa de gelo sobre o braço esquerdo e refletindo sobre a vida… Será que se eu malhasse as pessoas deixariam de pensar que sou adolescente? E isso que eu estou sentindo em relação à dor do meu braço é prazer?

Há muito tempo eu não tenho um machucado que dói por vários dias, provavelmente desde a infância. Agindo como psicanalista de mim mesma, eu aposto (psicanalistas apostam? Talvez seja melhor dizer “eu deduzo”) que esse prazer nasce de alguma lembrança nostálgica recôndita de quando eu era criança e meu joelho ralado (geralmente o direito) conseguia 90% da atenção e dedicação da minha mãe no processo de passar merthiolate e assoprar pra parar de arder. Os outros 10% da atenção geralmente eram para um feijão no fogo.

Resultado: A saudade da infância é tanta que até a dor faz a gente se lembrar dela.

“As Primeiras Quinze Vidas de Harry August” ou Como Viajar no Tempo Sem Querer Querendo

As Primeiras Quinze Vidas de Harry August” não poderia ter um título mais autoexplicativo. Dizer que são as primeiras implica na existência de próximas e é exatamente isso que acontece no livro. O protagonista e narrador é Harry, um rapaz que nasceu fruto de estupro e que perdeu a mãe no momento de seu nascimento – 1 de Janeiro de 1919. Foi criado por pais adotivos em uma família relativamente pobre. Depois de viver como uma pessoa comum nas mesmas condições – combater na Segunda Guerra Mundial, trabalhar na terra como um empregado e morrer em 1989, no dia da Queda do Muro de Berlim – Harry acorda para um novo ciclo da mesma vida.

Ele é um bebê que vê o mundo com olhos de um adulto de 70 anos e aos 3 recupera todas as memórias da vida passada. Como você reagiria se isso acontecesse? Bem, Harry nos explica que há 3 etapas na vida de um kalachakra: rejeição, exploração e aceitação. E veremos todas elas neste livro. Você pode estar se perguntando o que é um kalachakra. De acordo com o Google, é “um termo em sânscrito usado no budismo tântrico que literalmente significa ‘tempo-ciclo'”. Neste livro, são pessoas que nascem e morrem e renascem para viver a mesma vida. Sim, Harry não é um floquinho de neve, existem mais como ele. Estes seres resolvem se juntar e formar o Clube Cronus, para auxiliar uns aos outros e transmitir mensagens do futuro para o passado e vice-versa. Um outro objetivo, é tentar manter os acontecimentos com o mínimo de variação possível. Você não pode matar Hitler nem impedir que alguém importante morra, porque essas mudanças afetariam de maneira drástica o futuro, impedindo o nascimento de outros kalachakras e talvez até causando o fim do mundo.

“Ouroboros”, o símbolo da eternidade.

E é nesse ponto que a narrativa vai se desenvolver. Harry está em seu leito de morte, na 11ª vida, quando uma garotinha lhe comunica que o mundo está acabando e que agora é a vez dele de tentar descobrir quem está fazendo isso e porquê. Durante o livro vamos acompanhar Harry em diversos momentos de sua vida e a investigação para descobrir o que está acontecendo. Temos um antagonista muito interessante, que eu não vou contar quem é porque ele só é revelado bem adiante e poderia estragar o momento para alguns leitores, mas adianto que esse livro não é nem um pouco maniqueísta. Não há mal absoluto, não tem vilões  desalmados que querem destruir o universo.

“Concluí que a minha vida seguinte seria o caos.”
(p.318)

É fácil se perder na leitura por conta das digressões feitas pelo narrador para justificar determinadas reações. Em alguns momentos me peguei tentando entender em que vida ele estava, porque o personagem X havia morrido ou usava um nome diferente. A origem dos kalachakra também não é explicada e nem parece ser intenção da autora fazê-lo. Entendi que ela pode querer revisitar esse univeso em um próximo livro e talvez, só então, a origem deles seja abordada. Alguns capítulos são desnecessariamente curtos e poderiam ser editados em um único capítulo mais redondo. A parte científica também deixa a desejar, pois muitas coisas são deixadas no ar, como se fossem de conhecimento geral, quando não são. Isso pode se dever a falta de conhecimento da escritora a respeito dos assuntos tratados. Não saberia afirmar com certeza. No todo, esse parágrafo seria as minhas críticas negativas. E nenhuma delas me impediu de dar cinco estrelas pra esse livro.

O texto é envolvente e flui muito bem. É aquele tipo de livro que você não quer parar de ler e também não quer que acabe. A autora soube desenvolver bem as personagens principais e trabalhar com fatos históricos. O conceito é interessante e a simbologia também. Em vários momentos, os kalachakra são chamados de ouroboros (e esse símbolo também aparece representando o Clube Cronus), que é aquela figura da cobra comendo o próprio rabo, podendo simbolizar o ciclo da vida, o infinito, a mudança, o tempo, a evolução, a fecundação, o nascimento, a morte, a ressurreição, a criação, a destruição, ou a renovação. Consigo ver todas as interpretações no texto.

Se ainda não te convenci a ler, esse livro ganhou o o John W. Campbell Award de melhor ficção científica em 2015 e foi um dos finalistas do prêmio Arthur C. Clarke. Catherine Webb escreve sob o pseudônimo Claire North para ficção científica, mas já escreveu outros romances de literatura fantástica sob Kate Griffin. E seu primeiro livro, “Mirror Dreams”, foi escrito quando ela tinha apenas 14 anos!


“As Primeiras Quinze Vidas de Harry August”
Autora:  Claire North
Editora: Bertrand Brasil
Páginas: 448

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