Todos os posts em: Literatura

Os prazeres que a dor me traz

Já faz muito tempo que não choro enquanto minha mãe passa merthiolate no meu joelho ralado. Primeiro porque eu não ralo o joelho há muito tempo; segundo porque, mesmo que ralasse, eu mesma faria o curativo e merthiolate não arde mais. Em outras palavras, já fazia muito tempo que eu não tinha um machucado que fica doendo por vários dias (cólicas menstruais não entram no pacote). Até que, depois de muita procrastinação, eu tomei a vacina contra a febre amarela. Era uma sala pequena de pouco espaço para muita gente. Três enfermeiras na triagem, três pessoas sentadas apreensivas na frente delas, dois adultos sem função definida mas que mesmo assim conversavam muito alto a respeito do jogo Flamengo e Vasco, duas mães e um pai com seus respectivos filhos que gritavam muito alto a respeito das seringas que dois enfermeiros preparavam. E eu. Eu estava tranquila, apesar de confusa com o barulho. Depois que as crianças saíram, e ainda bem que saíram, eu estendi o meu braço e fui vacinada. Resultado: é sempre bom saber que você já pode viajar sem medo de pegar febre …

Eu não sou uma fracassada, eu tenho ansiedade

Eu tenho ansiedade, e ser ansiosa é diferente de ter ansiedade. “Ser ansiosa” serve para quando você quer impressionar numa entrevista de emprego e dizer que é dinâmica e faz as coisas bem rápido. Mas “ter ansiedade” é uma coisa completamente diferente. Por exemplo, eu tenho ansiedade mas não sou ansiosa. Contraditório? Pra caramba. Eu preferia que fosse o contrário. Ansiedade é uma doença. “Isso é transtorno de ansiedade”, o médico vai dizer pra você. E a partir daí você vai ter um nome para todos os seus momentos de insônia, falta de ar, apertos no peito, enjôo intenso (ou fome interminável). E vai descobrir que o cardiologista não tem nada a ver com esse seu coração que, de repente, acha que precisa bater os batuques de toda uma vida em um único segundo. “Você, sendo você, é a melhor pessoa para se enganar e também a melhor para cair na sua própria enganação como um patinho.” Se você for como eu (e eu recomendo que nesse caso você seja), você vai procurar um psicólogo. E vai …

A mesma pessoa

A mesma pessoa que te ajuda e te faz um bem enorme é a mesma que pode, em poucos segundos (talvez uma conversa de duas horas ao telefone), trazer todos os seus problemas de volta. Há alguns dias eu vi um quadrinho em que um personagem dizia “É preciso acreditar na palavra das pessoas”, e o outro respondia: “Eu prefiro acreditar nas atitudes”. Queria ter aprendido isso antes. *Foto: Esra Roise

Tim Maia me faz lembrar que te amo

Ouvir música romântica me deixa com tanta saudade que eu fico triste. É algo a ver com a voz grossa ou talvez seja a informalidade do Tim Maia cantando “Baby, Baby I love you”, não sei. Mas eu lembro que eu te amo, porque a gente esquece que ama às vezes, os afazeres do dia, os horários, a vida inconstante de profissão indefinida. Eu lembro que te amo, e meu amor se mistura assim com a idealização do amor… E cenas patéticas do cotidiano, essas que são sempre tão magníficas quando estou contigo, começam a passar efusivamente pela minha imaginação. Como comer picles assistindo a qualquer filme na Netflix, aqueles dez minutos iniciais antes de eu cair no sono e te deixar sozinho, mas com a cabeça repousada no seu peito. “Baby, Baby I love you”, eu lembro que te amo e nossa!, como fico triste. Porque é impossível ser assim tão feliz, entende? E quando atinge o ápice, essa felicidade máxima idealizada, a roda dá a volta e chega na tristeza da saudade. “Baby, Baby …

Como colocar ovelhas e verrugas xamãs na mesma frase

Apenas um post da série “Desafios Hilários de Escrita”. Este foi proposto pelo Tales Gubes, do Ninho de Escritores: DESAFIO Uma frase com 23 palavras, cada uma começando com uma letra do alfabeto ~na ordem alfabética~ (não vamos usar k, y ou w). Se não conseguir 23, vai até onde alcançar. Exemplo: “A bonita companheira do elefante…” Eis a minha frase: “A bomboniére chilena da esquina faz gostosos helicópteros indígenas, jujubas. Lá mesmo, nossa ovelha perdeu qualquer resquício servil. Tinha umas verrugas xamãs zunindo.” Precisava fazer sentido? É claro que sim. Mas quem nunca viu jujubas em formato de helicópteros indígenas e verrugas xamãs, não é mesmo?

Te guardar em potinho (mesmo que não caiba)

Eu tenho, sabe, uma vontade de registrar todos os nossos momentos. Gravar, fotografar, guardar em um potinho de vidro com tampa de cortiça. Comprar um caderno, fazer de scrapbook, juntar em cada página referências que me façam reviver cada momento. Olhares, músicas, cores, texturas. Nós temos alguns momentos gravados, você sabe. E como é bom voltar a eles de tempo em tempo. Essa relação meio masoquista de matar e aumentar a saudade simultaneamente. E eu gosto tanto de você, que às vezes sinto saudades mesmo quando estou do seu lado. Acho que ainda não inventaram beijo, abraço, sei lá mais o que suficiente pro que sinto. Olhares, eles são suficientes. Mas um olhar não se guarda, não o olhar de fato. O que fica é essência, aquele aperto quente no peito. Eu sou sempre tão gelada, fisicamente gelada, que me surpreendo como você é capaz de me aquecer em poucos segundos. É isso, o que fica é essência. Amor é essência em potinho de vidro com tampa de cortiça.

Travesseiro de Gueixa

A primeira vez em que lhe perguntaram o que seria quando crescesse, ficou com cara de boba sem saber o que dizer. Dois dias depois disso, assistindo a um filme escondida atrás do sofá, foi apresentada a um mundo completamente novo. Samurais, mulheres de roupas coloridas e maquiagem engraçada, e então se decidiu: Quando crescesse, ela seria gueixa. Esperou por muito tempo até que alguém fizesse de novo a pergunta. Semanas, meses se passaram, e ela se deu conta de que comunicar sua decisão ao mundo não seria o bastante. Não bastava dizer que seria, era preciso ser de fato. Empurrou uma cadeira até a estante da sala, alcançou a prateleira onde um livro grosso indicava as letras G-H. Era ali que o avô procurava quando não conseguia responder a alguma pergunta. Muito pesado, o volume escapou-lhe da mão e quase lhe atingiu a cabeça, mas com sorte foi cair sobre o tapete, que tratou de abafar o som. Ali mesmo, a mãe demoraria a voltar do mercado e o gato não se importava muito …

Breve ensaio sobre tpm

Tenho a impressão de que as decisões mais importantes da minha vida são tomadas durante a tpm, e isso diz muito sobre mim. Eu me demito, eu me declaro, eu saio de casa sem rumo, eu penso em me matar. E choro convulsivamente a morte das pessoas queridas, a morte futura das pessoas queridas, a sujeira impregnada das pessoas de rua. A ponto de fingir que estou gripada pra ninguém achar que estou chorando de verdade. Durante a tpm eu viro outra mulher. Eu sinto coisas que não são minhas, mas que na verdade são e eu tenho certo medo de admitir. Eu sinto tudo sob lente de aumento, com intensidade à la Artaud, acordo no meio da noite com medo de eletrodos. Durante a tpm eu me mato e no momento seguinte sei que sou a pessoa mais feliz do mundo. Ilustração: Esra Roise

Eu preciso que eles melhorem

Sempre que eu ouço alguém falando desses garotos e garotas com tanta raiva, eu me lembro daquele menino. Franzino, a altura não passava do meu tórax, hoje ele deve estar maior, quase com 16. Vinha num grupo de cinco, quatro talvez. Todos sorridentes, correndo, pés no chão, as pernas magricelas desafiando a física. Passou por mim, recém-saído da sombra do poste. O peito nu combinando com a sombra escura do poste. Passou por mim e agarrou minha correntinha de ouro, arrancou-a do meu pescoço ao mesmo tempo em que me chamava de gostosa e soltava um sorrisinho, o talento para várias tarefas simultâneas. Mas ele parou de correr, eu olhando pra trás, a mão direita segurando os três dedos de cicatriz que ele me deixou. Ele olhou pra trás, bem sério, tinha uma faquinha na cintura. Um menino de 8, 9 anos com uma faquinha na cintura. Sozinho, muito magro, muito sujo. Parou, olhou pra trás, meu olhar puxou o dele. Uma conexão inusitada, não mais que um segundo expandido pela nossa percepção, realidade paralela. Até que “Corre, muleke!” de …

10 anos me aproximaram de ‘O Senhor dos Anéis’

De vez em quando eu me pego assistindo aqueles reality shows sobre acumuladores, e de repente sou envolvida por um clima de renovação, do tipo resolução de réveillon, que me faz limpar os meus armários. Dessa vez, pela primeira vez na minha vida, o de roupas não foi suficiente pra aplacar minha vontade – e então eu ataquei minhas prateleiras de livros. O que aconteceu no meu quarto a seguir teve proporções inimagináveis.