Todos os posts em: Literatura

Eu preciso que eles melhorem

Sempre que eu ouço alguém falando desses garotos e garotas com tanta raiva, eu me lembro daquele menino. Franzino, a altura não passava do meu tórax, hoje ele deve estar maior, quase com 16. Vinha num grupo de cinco, quatro talvez. Todos sorridentes, correndo, pés no chão, as pernas magricelas desafiando a física. Passou por mim, recém-saído da sombra do poste. O peito nu combinando com a sombra escura do poste. Passou por mim e agarrou minha correntinha de ouro, arrancou-a do meu pescoço ao mesmo tempo em que me chamava de gostosa e soltava um sorrisinho, o talento para várias tarefas simultâneas. Mas ele parou de correr, eu olhando pra trás, a mão direita segurando os três dedos de cicatriz que ele me deixou. Ele olhou pra trás, bem sério, tinha uma faquinha na cintura. Um menino de 8, 9 anos com uma faquinha na cintura. Sozinho, muito magro, muito sujo. Parou, olhou pra trás, meu olhar puxou o dele. Uma conexão inusitada, não mais que um segundo expandido pela nossa percepção, realidade paralela. Até que “Corre, muleke!” de …

10 anos me aproximaram de ‘O Senhor dos Anéis’

De vez em quando eu me pego assistindo aqueles reality shows sobre acumuladores, e de repente sou envolvida por um clima de renovação, do tipo resolução de réveillon, que me faz limpar os meus armários. Dessa vez, pela primeira vez na minha vida, o de roupas não foi suficiente pra aplacar minha vontade – e então eu ataquei minhas prateleiras de livros. O que aconteceu no meu quarto a seguir teve proporções inimagináveis.

O plano não cobre

Este texto é uma resposta ao texto preconceituoso de Silvia Pilz, “O plano cobre”. Clique aqui e saiba do que eu estou falando. Todo pobre de espírito tem problema de pressão. Seja real ou imaginário. É uma coisa impressionante. Às vezes sua vitamina vem com pouca pera para muito leite, é uma chateação. E quando as pessoas “não entendem” o que quiseram dizer, então, que chato. Acontece que o pobre de espírito – normalmente – justifica sua falta de educação e consideração com o próximo alegando que “diz o que pensa”. Fazem isto para “causar”, porque desesperadamente precisam de atenção. Portanto, quando alguém discorda de sua opinião, o pobre de espírito – geralmente arrogante – esperneia: “ninguém entendeu meu humor cáustico, assim perde a graça!”. Pobres de espírito podem ser ofensivos com a desculpa de estarem fazendo uma piada, mas qualquer direito de resposta é encarado como linchamento. Aliás, o pior de tudo é quando o pobre de espírito se acha com dotes para o humor. Acrescente-se a este equívoco um espaço de visibilidade em um veículo de comunicação, e o …

Objeto em extinção

Vi uma bolinha de gude passando no valão. Uma bolinha de gude, ninguém mais brinca disso. Ela poderia ser minha. Aos sete anos eu colecionava gudes com meu primo. A maior parte da nossa coleção era proveniente da coleção da minha mãe (naquela época elas já estavam virando decoração). Um dia inventei uma mentira.  

Universo em sincronia

(Ou o início de algo que comecei e ainda não terminei) Os espasmos involuntários das mãos do velho acompanham o ritmo da música que sai dos fones de ouvido da garota. A garota, “alta” demais para não se divertir com uma situação dessas, admira a sincronia do universo evidenciada num 170 sentido Gávea. No banco da frente, onde as mãos do velho tamborilam a música da garota, a mulher grávida se aborrece. Achava merecer um pouco de descanso após a noite de briga com o marido, mas a criança dentro dela tem dotes pro carnaval e samba com o batuque do velho. O velho olha sem ver a paisagem que passa vagarosa. Não tem para onde olhar; teme que qualquer movimento sobressalente chame a atenção de alguém para a sua condição embaraçosa.

Anáfora e Anacoluto

Anáfora era solteira, mas não por opção. Desde os 15 anos, sua metáfora era perder a zeugma, mas ela nunca conseguira. Era escritora. Juntava polissíndetos e perífrases o dia todo, e assim formava prosopopeias. “Por isso não tenho tempo para solecismos”, ela justificava, mas todos sabiam que era puro pretexto. Anáfora era cheirosa, mas era fronha. Todos gostavam de ler suas prosopopeias, mas quando ela falava, os mais sensíveis chegavam a ter ataques de silepse. Um dia chegou à cidade um cara meio surdo. Anacoluto. Fora expulso de Cadarço sob a alegação de ter se negado a fazer a catacrese, mas a verdade é que ninguém gostava deve porque era cacófato. Anacoluto era médico e rico; abriu uma clínica. Anáfora foi fazer exame de assonância magnética. – T-tire os obje-jetos m-metálicos e p-pontiagudos, p-p-p-por favor. – Brondinho, já direi. Foi amor à primeira vista. Anacoluto fez metonímia, e Anáfora perdeu a zeugma. Os dois se casaram, e hoje vivem em perfeita sinestesia.

Mundo Ovo

Chega um tempo na vida em que você já é crescido, já passou da época da escola, da faculdade. Então todos os seus amigos começam a se misturar no facebook; você já não os vê com tanta frequência e não sabe mais dizer a qual roda social eles pertencem. Você vê um comentando a foto de outro e pensa “Uau, eles se conhecem!” Quando, mais tarde, se deita pra dormir, pensa em como o mundo é um ovo. E se dá conta: É óbvio que eles se conhecem, eles estudaram no mesmo lugar, especificamente na mesma sala que você. Vocês inclusive fizeram um grupo e apresentaram um trabalho juntos. Foram a festas juntos. Veja só, vocês tem até algumas fotos juntos! Mas por que mesmo vocês não se falam mais?

Inevitavelmente pó

Simpatizo com a ideia de ser cremada. Ser consumida por vermes e insetos me causa aflição. Mas alguém cremado vira cinzas, e aí surge a questão: Ou você fica eternamente enclausurado num recipiente mórbido que, com alguma sorte, receberá um lugar de respeito na casa de alguém, ou você pede para que alguém (provavelmente o mesmo que te guardaria num recipiente) jogue suas cinzas em algum lugar simbólico – o mar, o jardim – e lá se vai você, sendo comido outra vez, mas agora bem passado.