Todos os posts em: Livro

Admirável Munto Moderno – “Wild Cards”, de George R.R. Martin

Já pensou se a mente por trás de Game Of Thrones fosse encarregada de criar o Universo Marvel? Então, Wildcards é (quase) isso. A capa, com certeza, ostenta bem grande o nome “George R. R. Martin”, mas se você olhar as letras miúdas, vai ver que o livro foi editado por ele. O que isso quer dizer? E, afinal, é ou não é um livro do George Martin? Bem, sim e não. Esse livro começou como um RPG que George mestrava para os seus amigos. Eles são os autores dos diversos contos que formam o livro. Ironicamente, o conto escrito pelo George Martin foi o que eu menos gostei. Embora seja uma história muito importante para o macro cosmo do livro, ela estanca com excessos de descrição e “beats” clichês. A que eu mais gostei foi a devidamente intitulada “Powers”, que mostra como uma pessoa pacata tem que lidar com um poder “overpower”. A qualidade dos contos definidamente não é uniforme, mas tem algo lá para todo mundo. Tom Wolfe aparece para fazer um interlúdio, …

Deuses NeoAmericanos

*Este texto pode conter spoilers. O livro “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman, é um espetáculo. Lançado em 2001, ele é um exemplo de uma narrativa extremamente bem contada e envolvente que associa com precisão metafórica elementos da vida real e o sobrenatural e mágico. As melhores partes do livro, na minha opinião, são os capítulos de “Vindas à América”. Colocados em partes estratégicas do livro, aparentemente sem conexão alguma com a história corrente, eles revelam muito do universo fantástico criado por Gaiman. Clique aqui e assista ao vídeo especial sobre “Deuses Americanos na era Trump”!

Overdose de Alien: “Covenant” + “Rio de Sofrimento”

Uma semana e tanto para os amantes da maior criatura parasita de humanos que a gente respeita: a estreia do filme “Alien: Covenant” coincidiu, obviamente não por acaso, com o lançamento do livro “Alien – Rio de Sofrimento”. E nesse texto você confere um combo com a crítica de ambos, com direito a pipoca e guaraná — mas os dois últimos ficam por sua conta, combinado? Clique aqui e confira os livros de Alien em promoção! Alien – Rio de Sofrimento É  o terceiro e último livro da expansão oficial do universo. O primeiro foi “Alien – Surgido das Sombras”, escrito por Tim Lebbon, o segundo foi “Alien – Mar de Angústia”, de James Moore, e este último ficou por conta de Christopher Golden. Ao contrário dos dois primeiros livros, situados no planeta-colônia New Galveston, “Rio de Sofrimento” se passa em Aqueronte, o mesmo planeta onde Ellen Ripley e a equipe da Nostromo encontraram o xenomorfo original. Durante o processo de terraformação do planeta, uma das expedições descobre a espaçonave alienígena que, no passado, atraiu Ripley para lá. E é exatamente esse …

“O casal que mora ao lado” não convence

“As pessoas são capazes de qualquer coisa”, diz a capa do thriller policial da escritora canadense Shari Lapena. De fato, esta frase diz muito sobre o livro em questão. Publicado recentemente no Brasil pela Editora Record, “O casal que mora ao lado” parte do sequestro de uma bebê para abordar questões como a ganância e o egoísmo. Mas o que começa de forma promissora acaba se perdendo em meio a personagens mal justificados e situações forçadas. Uma pena. Compre o seu clicando aqui e ajude o Literasutra a crescer!

Grandes Poderes

Ficção científica sempre foi um cunho forte da literatura. Muitas vezes servindo como matéria prima de filmes, as melhores histórias sobre o futuro estão lá. “Gigantes Adormecidos” do novato Sylvain Neuvel intriga e parece aspirar vôos semelhantes aos de Phillip Dick e Arthur Clarke. Muitos anos atrás, enquanto passeava de bike no seu aniversário, uma garotinha caiu em uma estátua de mão gigante. Avançando para o presente, outras partes do corpo foram descobertas pelo mundo, e a mesma criança que caiu na mão, hoje chefia as pesquisas de montagem e compreensão do Megazord. Embora a premissa seja muito promissora, o livro faz uma curva drástica para o melodrama. Logo logo, o foco muda para as relações pessoais dos membros da equipe. A fofoca de escritório até intriga, mas a impressão que passa é que temos problemas maiores para cuidar. Quando volta ao foco, aí sim o livro fica interessante. Ele discorre sobre a ética do poder com a perspectiva de um poder devastador enquanto tece redes de intriga internacional. O payoff nunca chega bem aos …

“As Primeiras Quinze Vidas de Harry August” ou Como Viajar no Tempo Sem Querer Querendo

“As Primeiras Quinze Vidas de Harry August” não poderia ter um título mais autoexplicativo. Dizer que são as primeiras implica na existência de próximas e é exatamente isso que acontece no livro. O protagonista e narrador é Harry, um rapaz que nasceu fruto de estupro e que perdeu a mãe no momento de seu nascimento – 1 de Janeiro de 1919. Foi criado por pais adotivos em uma família relativamente pobre. Depois de viver como uma pessoa comum nas mesmas condições – combater na Segunda Guerra Mundial, trabalhar na terra como um empregado e morrer em 1989, no dia da Queda do Muro de Berlim – Harry acorda para um novo ciclo da mesma vida. Ele é um bebê que vê o mundo com olhos de um adulto de 70 anos e aos 3 recupera todas as memórias da vida passada. Como você reagiria se isso acontecesse? Bem, Harry nos explica que há 3 etapas na vida de um kalachakra: rejeição, exploração e aceitação. E veremos todas elas neste livro. Você pode estar se perguntando …

O triângulo isósceles-amoroso de “The Kiss of Deception”

Na minha lista de “piores clichês do mundo literário”, o triângulo amoroso está em segundo lugar. Em primeiro está o romance forçado, aquele que gera beijos demorados no meio de uma perseguição zumbi, porque aparentemente os zumbis respeitam o amor. Mas o assunto desse texto são os triângulos amorosos. Especificamente o de “The Kiss of Deception”, primeiro volume  das Crônicas de Amor e Ódio. Escrita pela californiana Mary E. Pearson, a história ganhou reconhecimento da crítica especializada e dos leitores, e não sem merecer: mesmo partindo de um plot clichê, a autora desenvolveu a narrativa de uma forma que não somente surpreende o leitor, mas também passa mensagens muito necessárias.

Quando o filme é melhor do que o livro

Costumamos ter como máxima que livros são sempre melhores do que suas adaptações cinematográficas. Parece ser ponto pacífico que nos seus originais literários as histórias encontrem uma realização mais complexa, mais total. Inclusive, muito se argumenta em favor do formato do audiovisual seriado, por ser um tempo-espaço onde uma trama consegue se desenvolver com um ritmo em tese mais aprofundado do que o clássico longa-metragem. Mas ainda assim, mesmo nesse território, adaptações costumam ganhar a fama de versões pioradas de livros. Este definitivamente não é o caso de “A Menina Que Tinha Dons”. O livro de M.R. Carey nos traz a história de Melanie, uma criança da segunda geração de um mundo infectado por um fungo que desencadeou o apocalipse zumbi, aqui chamados de “famintos”. A segunda geração contaminada apresenta as funções mentais preservadas, e inclusive Melanie é algo como uma superdotada, extremamente inteligente e plenamente capaz de nutrir afeto, o que a coloca numa luta interna com seus instintos bestiais. Um grupo de crianças é mantido numa base militar sob rígida rotina de confinamento, …

Tarde demais para ser odioso

Uma fala do filme “A Árvore da Vida”, de Terrence Malick, diz: “Há dois caminhos na vida: o da natureza e o da graça”. Imanência e transcendência, instinto e racionalidade, biologia e cultura. Dualismos à parte, muitas vezes descobrimos que os caminhos são ao mesmo tempo infinitos e ao mesmo tempo um só. “O Pescoço da Girafa”, de Judith Shalansky, traz Inge Lohmark, uma mulher de meia-idade, professora de adolescentes numa escola situada na região que pertencera à Alemanha Oriental. Inge é uma mulher aparentemente agarrada a um outro tempo, e carrega notas de desgosto em cada olhar que direciona à juventude com que convive. Suas observações percorrem um território sem fronteiras no texto, ora se está imerso no fluxo de pensamento da personagem, ora se está de fora, e há momentos em que simplesmente não é possível diferenciar. No entanto, essa melancolia amarga de quem supostamente viveu tempos melhores é apenas a superfície de Inge. O rancor da personagem se dirige a tudo: à beleza e ao sofrimento da adolescência, às demonstrações de carinho de …

Precisamos falar sobre “O Filho Eterno”

É sempre um risco falar de maternidade e paternidade. Independente do conteúdo ou da forma, sempre paira no ar toda a carga de julgamentos morais que, apesar de recentes na História, parecem estar tão entranhados na nossa corporalidade, e às vezes é inevitável que eles se presentifiquem. Um livro como “O Filho Eterno”, de Cristóvão Tezza, faz com que essas fibras imaginárias se contorçam permanentemente, ao mesmo tempo gerando repulsa e atração no leitor. O livro de Tezza é daqueles em que se sofre a cada página, mas também é impossível parar. Não no sentido de um masoquismo vazio, mas porque é uma experiência rara a de se ver enlaçado por coisas que você não quer ouvir, e que talvez atinjam em algo parecido com seu âmago. O livro acaba de ser adaptado para os cinemas, com estréia prevista para o dia 30 de novembro, e a convite do Literasutra pude conferir o filme em primeira mão. “O Filho Eterno” é a história de um homem cujo filho tem síndrome de Down. O desvio do termo “pai” …