Todos os posts com a tag: Crônica

Os prazeres que a dor me traz

Já faz muito tempo que não choro enquanto minha mãe passa merthiolate no meu joelho ralado. Primeiro porque eu não ralo o joelho há muito tempo; segundo porque, mesmo que ralasse, eu mesma faria o curativo e merthiolate não arde mais. Em outras palavras, já fazia muito tempo que eu não tinha um machucado que fica doendo por vários dias (cólicas menstruais não entram no pacote). Até que, depois de muita procrastinação, eu tomei a vacina contra a febre amarela. Era uma sala pequena de pouco espaço para muita gente. Três enfermeiras na triagem, três pessoas sentadas apreensivas na frente delas, dois adultos sem função definida mas que mesmo assim conversavam muito alto a respeito do jogo Flamengo e Vasco, duas mães e um pai com seus respectivos filhos que gritavam muito alto a respeito das seringas que dois enfermeiros preparavam. E eu. Eu estava tranquila, apesar de confusa com o barulho. Depois que as crianças saíram, e ainda bem que saíram, eu estendi o meu braço e fui vacinada. Resultado: é sempre bom saber que você já pode viajar sem medo de pegar febre …

Aqui vai uma carta de amor

Aviso aos leitores: Essa nem pode ser considerada uma resenha e sim uma carta de amor. Carpinejar, seu lindo! Me liga, tá? Não se engane se a orelha do livro “Para onde vai o amor?” te fizer pensar que é mais um autoajuda sobre relacionamentos. (Não que livros de autoajuda sejam ruins, mas é que existem tantos e tão parecidos que me fazem perder o interesse). O trabalho aqui é justamente enganar as pessoas que procuram esse tipo de estilo. Ele te ganha com essa intenção, mas te apresenta crônicas ótimas, ritmadas e intensas. E talvez para algumas pessoas tenha até servido de autoajuda, vai saber! A “Monalisa coração de pedra” acha que as frases das crônicas podem ser usadas em legenda para selfies, mas eu me senti muito inspirada depois de ler o livro. Quis sentar em um jardim e escrever longas cartas de amor… Tudo bem que a vontade logo passou, mas gostei de sentir isso.  Sou do grupo do Nelson Rodrigues: “Sem paixão não dá nem para chupar um picolé” e foi ótimo conhecer mais um …

Para onde foi meu coração de pedra?

“Para onde vai o amor?” é o novo livro do Carpinejar. Recém-publicado pela editora Bertrand Brasil (Grupo Editorial Record), o livro é um compilado de crônicas unidas por única temática: relacionamentos amorosos. Este foi o meu primeiro contato com o autor, e infelizmente não foi muito agradável… Clique aqui e leia o texto da Brenda Leal, que tem uma opinião completamente diferente da minha! Aparece neste vídeo: “Para onde vai o amor?” Autor: Fabrício Carpinejar Editora: Bertrand Brasil Páginas: 176 *Livro cedido em parceria pela editora.

10 anos me aproximaram de ‘O Senhor dos Anéis’

De vez em quando eu me pego assistindo aqueles reality shows sobre acumuladores, e de repente sou envolvida por um clima de renovação, do tipo resolução de réveillon, que me faz limpar os meus armários. Dessa vez, pela primeira vez na minha vida, o de roupas não foi suficiente pra aplacar minha vontade – e então eu ataquei minhas prateleiras de livros. O que aconteceu no meu quarto a seguir teve proporções inimagináveis.

O plano não cobre

Este texto é uma resposta ao texto preconceituoso de Silvia Pilz, “O plano cobre”. Clique aqui e saiba do que eu estou falando. Todo pobre de espírito tem problema de pressão. Seja real ou imaginário. É uma coisa impressionante. Às vezes sua vitamina vem com pouca pera para muito leite, é uma chateação. E quando as pessoas “não entendem” o que quiseram dizer, então, que chato. Acontece que o pobre de espírito – normalmente – justifica sua falta de educação e consideração com o próximo alegando que “diz o que pensa”. Fazem isto para “causar”, porque desesperadamente precisam de atenção. Portanto, quando alguém discorda de sua opinião, o pobre de espírito – geralmente arrogante – esperneia: “ninguém entendeu meu humor cáustico, assim perde a graça!”. Pobres de espírito podem ser ofensivos com a desculpa de estarem fazendo uma piada, mas qualquer direito de resposta é encarado como linchamento. Aliás, o pior de tudo é quando o pobre de espírito se acha com dotes para o humor. Acrescente-se a este equívoco um espaço de visibilidade em um veículo de comunicação, e o …

Objeto em extinção

Vi uma bolinha de gude passando no valão. Uma bolinha de gude, ninguém mais brinca disso. Ela poderia ser minha. Aos sete anos eu colecionava gudes com meu primo. A maior parte da nossa coleção era proveniente da coleção da minha mãe (naquela época elas já estavam virando decoração). Um dia inventei uma mentira.  

Universo em sincronia

(Ou o início de algo que comecei e ainda não terminei) Os espasmos involuntários das mãos do velho acompanham o ritmo da música que sai dos fones de ouvido da garota. A garota, “alta” demais para não se divertir com uma situação dessas, admira a sincronia do universo evidenciada num 170 sentido Gávea. No banco da frente, onde as mãos do velho tamborilam a música da garota, a mulher grávida se aborrece. Achava merecer um pouco de descanso após a noite de briga com o marido, mas a criança dentro dela tem dotes pro carnaval e samba com o batuque do velho. O velho olha sem ver a paisagem que passa vagarosa. Não tem para onde olhar; teme que qualquer movimento sobressalente chame a atenção de alguém para a sua condição embaraçosa.

Mundo Ovo

Chega um tempo na vida em que você já é crescido, já passou da época da escola, da faculdade. Então todos os seus amigos começam a se misturar no facebook; você já não os vê com tanta frequência e não sabe mais dizer a qual roda social eles pertencem. Você vê um comentando a foto de outro e pensa “Uau, eles se conhecem!” Quando, mais tarde, se deita pra dormir, pensa em como o mundo é um ovo. E se dá conta: É óbvio que eles se conhecem, eles estudaram no mesmo lugar, especificamente na mesma sala que você. Vocês inclusive fizeram um grupo e apresentaram um trabalho juntos. Foram a festas juntos. Veja só, vocês tem até algumas fotos juntos! Mas por que mesmo vocês não se falam mais?

Livrinho de aeroporto

Terminada minha leitura de “Nu, de Botas”, eu estava ávida para ler os comentários de outros leitores, então fui até o Goodreads. Poderia dizer que todos eles, sem exceção, exultavam as qualidades do livro de Antonio Prata, se não fosse por um dito cujo que dizia: “livrinho de aeroporto, muito ruim”. De fato, foi o comentário mais verdadeiro de todos, se considerado apenas o pré-vírgula. “Nu, de botas” é mesmo um livrinho de aeroporto. No diminutivo por ser curto demais para algo tão divertido, e “de aeroporto” por ser capaz de capturar a atenção mesmo num lugar tão barulhento.