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Elas por Elas – “O Conto da Aia”, de Margaret Atwood

Um belo dia, a Monalisa me repreendeu na Livraria da Travessa por não conhecer “O Conto da Aia”. Olhei o livro e achei a capa feia. Um ano e uma série aclamada pela crítica depois, achei melhor ler o livro, e o que encontrei foi uma narrativa poderosa o suficiente para fazer homens sentirem o peso do machismo. Veja a resenha da Monalisa no vídeo abaixo: Anúncios

Quando o filme é melhor do que o livro

Costumamos ter como máxima que livros são sempre melhores do que suas adaptações cinematográficas. Parece ser ponto pacífico que nos seus originais literários as histórias encontrem uma realização mais complexa, mais total. Inclusive, muito se argumenta em favor do formato do audiovisual seriado, por ser um tempo-espaço onde uma trama consegue se desenvolver com um ritmo em tese mais aprofundado do que o clássico longa-metragem. Mas ainda assim, mesmo nesse território, adaptações costumam ganhar a fama de versões pioradas de livros. Este definitivamente não é o caso de “A Menina Que Tinha Dons”. O livro de M.R. Carey nos traz a história de Melanie, uma criança da segunda geração de um mundo infectado por um fungo que desencadeou o apocalipse zumbi, aqui chamados de “famintos”. A segunda geração contaminada apresenta as funções mentais preservadas, e inclusive Melanie é algo como uma superdotada, extremamente inteligente e plenamente capaz de nutrir afeto, o que a coloca numa luta interna com seus instintos bestiais. Um grupo de crianças é mantido numa base militar sob rígida rotina de confinamento, …

Que tipo de homem escreve uma história de amor?

Até ganhar intimidade com o mercado editorial, um escritor precisa antes enfrentar algumas dificuldades. A mais conhecida delas parte do princípio: encontrar um assunto sobre o qual escrever, tarefa que pode ser resumida em uma perguntinha bem marota: “O que te motiva?”. Mas não basta responder à pergunta; logo em seguida entra em ação o segundo problema. Assunto perfeitamente escolhido, agora é hora de escrever de fato.

Escrita a oito mãos, seis delas fictícias

Transcendendo o significado da expressão, “Os Contos de Beedle, o Bardo” é um livro-brinquedo. “Livro” porque livro, e “brinquedo” por ser extremamente divertido, com um bônus para quem consegue mergulhar no faz de conta junto com a autora. Isto porque J.K. Rowling assume 3 vozes distintas na obra: A de Beedle, autor dos contos infantis; a do bruxo Dumbledore, cujas anotações particulares foram incorporadas a esta edição; e a própria J.K. Rowling, responsável por adaptar o livro para os trouxas (não-bruxos) – sem contar a personagem Hermione Granger que, segundo a sinopse, traduziu os contos direto das runas originais. Trata-se do mesmo livro mencionado em “Harry Potter e as Relíquias da Morte”, uma espécia de ficção dentro de outra ficção. Ao todo são 5 contos, sendo os dois últimos os melhores, incluindo “O Conto dos Três Irmãos”, que conta o surgimento das relíquias da morte: a Varinha das Varinhas, a Pedra da Ressurreição e a Capa da Invisibilidade. No universo criado pela autora, este pequeno livrinho que não toma mais que poucas horas de leitura é um livro …

Uma casa muito engraçada, sem teto, sem nada

“Terra de Casas Vazias” surgiu na minha vida com a intensidade do que é comprado por impulso. Relativamente curto, durando de dois a três dias de leitura (para alguém que só lê antes de dormir), sua narrativa é extremamente sedutora. Mais voltado aos aspectos psicológicos dos personagens que aos acontecimentos ao seu redor, o livro te pega de jeito e lá se vai, eternamente responsável por mais um leitor que cativa. Trata-se do quarto romance de André de Leones, autor brasileiro nascido em Goiânia. Segundo ele, até agora este foi o livro que mais lhe deu trabalho para escrever, mas que ao mesmo tempo foi o que mais lhe rendeu respostas positivas. Obviamente não sem motivo: “Terra de Casas Vazias” é uma obra consistente, com boa trama e personagens muito bem construídos: complexos, cheios de nuances e particularidades.  “Foi até o quarto da mãe, que, estirada na cama, assistia ao telejornal, e disse: – O gás está vazando. O gás está vazando e vamos todos morrer. Isadora olhou para ela, como se suspirasse e dissesse “Marcela..” e depois suspirou e disse: – …

“Saber que é comestível torna a pessoa viva”

Um escritor de romances água com açúcar de repente se descobre sobrevivente do apocalipse zumbi. E assim começa “A noite devorou o mundo”, livro que poderia ser mais um entre tantos outros sobre o tema. Mas o romance de Pit Agarmen (pseudônimo de Martin Page) foge dos clichês literários e cinematográficos estabelecidos até então. Não há nenhum cientista que se lança numa busca incansável pela cura, nenhuma criancinha asmática tentando sobreviver, nenhuma experiência secreta do exército norte-americano que tenha saído do controle. A história não se rende nem mesmo ao clichê da reinvenção das criaturas clássicas: Os zumbis não brilham no sol, não são super rápidos nem dotados de grande inteligência; são os mesmos morosos e macilentos de sempre. Embora tudo isso conte pontos a favor, o que torna o livro tão envolvente e intrigante é outra coisa: Nessa história de zumbis, os mortos-vivos são apenas um pretexto; o tema na verdade é a sociedade de consumo sob os olhos de um crítico feroz. “As certezas arrogantes da nossa espécie permitiram que um inimigo inesperado nos reenviasse à pré-história” …