Todos os posts com a tag: Ensaio

“Feminista” não é ofensa, é elogio

O que eu queria dizer talvez não pudesse ser dito. Eu queria dizer — e no final das contas disse — que ela é feminista. Comecei a escrever uma resenha sobre o livro “Em Águas Sombrias”, da Paula Hawkins, e demorei muito mais que o aceitável para colocar em palavras o que eu queria dizer. Foram quase 10 minutos reescrevendo a mesma frase até que eu percebesse o que estava fazendo, então o que a princípio seria apenas uma resenha acabou virando o que você está lendo agora: um metatexto sobre a minha experiência de escrever uma resenha sobre esse livro. Tudo isso para te dizer que toda aquela hesitação de 10 minutos foi porque o que eu queria dizer talvez não pudesse ser dito. Eu queria dizer — e no final das contas disse — que ela é feminista. Anúncios

Deuses NeoAmericanos

*Este texto pode conter spoilers. O livro “Deuses Americanos”, de Neil Gaiman, é um espetáculo. Lançado em 2001, ele é um exemplo de uma narrativa extremamente bem contada e envolvente que associa com precisão metafórica elementos da vida real e o sobrenatural e mágico. As melhores partes do livro, na minha opinião, são os capítulos de “Vindas à América”. Colocados em partes estratégicas do livro, aparentemente sem conexão alguma com a história corrente, eles revelam muito do universo fantástico criado por Gaiman. Clique aqui e assista ao vídeo especial sobre “Deuses Americanos na era Trump”!

Te guardar em potinho (mesmo que não caiba)

Eu tenho, sabe, uma vontade de registrar todos os nossos momentos. Gravar, fotografar, guardar em um potinho de vidro com tampa de cortiça. Comprar um caderno, fazer de scrapbook, juntar em cada página referências que me façam reviver cada momento. Olhares, músicas, cores, texturas. Nós temos alguns momentos gravados, você sabe. E como é bom voltar a eles de tempo em tempo. Essa relação meio masoquista de matar e aumentar a saudade simultaneamente. E eu gosto tanto de você, que às vezes sinto saudades mesmo quando estou do seu lado. Acho que ainda não inventaram beijo, abraço, sei lá mais o que suficiente pro que sinto. Olhares, eles são suficientes. Mas um olhar não se guarda, não o olhar de fato. O que fica é essência, aquele aperto quente no peito. Eu sou sempre tão gelada, fisicamente gelada, que me surpreendo como você é capaz de me aquecer em poucos segundos. É isso, o que fica é essência. Amor é essência em potinho de vidro com tampa de cortiça.

Breve ensaio sobre tpm

Tenho a impressão de que as decisões mais importantes da minha vida são tomadas durante a tpm, e isso diz muito sobre mim. Eu me demito, eu me declaro, eu saio de casa sem rumo, eu penso em me matar. E choro convulsivamente a morte das pessoas queridas, a morte futura das pessoas queridas, a sujeira impregnada das pessoas de rua. A ponto de fingir que estou gripada pra ninguém achar que estou chorando de verdade. Durante a tpm eu viro outra mulher. Eu sinto coisas que não são minhas, mas que na verdade são e eu tenho certo medo de admitir. Eu sinto tudo sob lente de aumento, com intensidade à la Artaud, acordo no meio da noite com medo de eletrodos. Durante a tpm eu me mato e no momento seguinte sei que sou a pessoa mais feliz do mundo. Ilustração: Esra Roise

Eu preciso que eles melhorem

Sempre que eu ouço alguém falando desses garotos e garotas com tanta raiva, eu me lembro daquele menino. Franzino, a altura não passava do meu tórax, hoje ele deve estar maior, quase com 16. Vinha num grupo de cinco, quatro talvez. Todos sorridentes, correndo, pés no chão, as pernas magricelas desafiando a física. Passou por mim, recém-saído da sombra do poste. O peito nu combinando com a sombra escura do poste. Passou por mim e agarrou minha correntinha de ouro, arrancou-a do meu pescoço ao mesmo tempo em que me chamava de gostosa e soltava um sorrisinho, o talento para várias tarefas simultâneas. Mas ele parou de correr, eu olhando pra trás, a mão direita segurando os três dedos de cicatriz que ele me deixou. Ele olhou pra trás, bem sério, tinha uma faquinha na cintura. Um menino de 8, 9 anos com uma faquinha na cintura. Sozinho, muito magro, muito sujo. Parou, olhou pra trás, meu olhar puxou o dele. Uma conexão inusitada, não mais que um segundo expandido pela nossa percepção, realidade paralela. Até que “Corre, muleke!” de …

Inevitavelmente pó

Simpatizo com a ideia de ser cremada. Ser consumida por vermes e insetos me causa aflição. Mas alguém cremado vira cinzas, e aí surge a questão: Ou você fica eternamente enclausurado num recipiente mórbido que, com alguma sorte, receberá um lugar de respeito na casa de alguém, ou você pede para que alguém (provavelmente o mesmo que te guardaria num recipiente) jogue suas cinzas em algum lugar simbólico – o mar, o jardim – e lá se vai você, sendo comido outra vez, mas agora bem passado.

A corrida errante na cabeça

Meu primeiro contato com Herta Müller me gerou muitos sentimentos, e não há maneira mais eficiente para explicar estes sentimentos que não seja citando as palavras da própria, encontradas no objeto que me proporcionou este tal primeiro encontro: “Se devo explicar porque considero um livro rigoroso e outro raso, só posso apontar para a densidade dos trechos que evocam a corrida errante na cabeça, trechos que imediatamente puxam meus pensamentos para onde as palavras não podem permanecer. (…) Toda boa frase na cabeça desemboca lá onde aquilo que ela desencadeia fala de outro modo consigo do que em palavras. E se digo que livros me transformaram, foi por esse motivo” (Pág. 22) E pronto, é exatamente isto. Esta romena conseguiu me tocar de uma forma que não consigo descrever com precisão. Vencedora do Prêmio Nobel de Literatura de 2009, em “O rei se inclina e mata”, este belo livro de capa amarela que ela mesma ilustrou, Herta reúne ensaios nos quais se questiona sobre sua própria escrita e história. E acredite, tudo isto é fascinante.