Todos os posts com a tag: Romance

A (falta de) representatividade negra em “A Casa das Sete Mulheres”

Logo no início da minha leitura de “A Casa das Sete Mulheres”, expressei meu descontentamento no instagram: a pouca representatividade dos personagens negros me incomodou muito, provavelmente porque contrastou com o tipo de leitura que tenho feito ultimamente. Considerei todos os comentários que recebi na postagem, e as quase 500 páginas do livro me deram tempo e material suficientes para estruturar melhor a minha opinião. Agora, terminada a leitura, parte do meu descontentamento permanece. E eu gostaria de saber o que vocês têm a dizer sobre isso. IMPORTANTE: Estas minhas divagações dizem respeito apenas ao primeiro livro da trilogia. Depois que eu ler os outros poderei atualizar minha opinião sobre o assunto (e espero que ela tenha motivos para mudar). Anúncios

Quando a ficção conta muito sobre a vida

A contracapa promete e o livro cumpre: Aminata Diallo é mesmo “uma das personagens femininas mais fortes e marcantes da ficção contemporânea”. A protagonista de O Livro dos Negros é tão acessível que quase torna-se palpável – mas esta é apenas a qualidade mais óbvia do romance de Lawrence Hill: Conhecido pela relevância de suas obras, o canadense alia o talento de escritor ao seu conhecimento enquanto sociólogo e estudioso da temática da escravidão. 

Que tipo de homem escreve uma história de amor?

Até ganhar intimidade com o mercado editorial, um escritor precisa antes enfrentar algumas dificuldades. A mais conhecida delas parte do princípio: encontrar um assunto sobre o qual escrever, tarefa que pode ser resumida em uma perguntinha bem marota: “O que te motiva?”. Mas não basta responder à pergunta; logo em seguida entra em ação o segundo problema. Assunto perfeitamente escolhido, agora é hora de escrever de fato.

A distopia da vida real

Em um microcosmo cíclico e imutável, um grupo de jovens e adolescentes tenta a sobrevivência. Vestidos em uniformes que os iguala a ponto de os transformar quase na mesma pessoa, eles trabalham dia após dia com um único objetivo: seguir o Padrão. O Padrão tem regras claras, diretas e o mais importante de tudo para o sistema: imutáveis. Parece ficção científica, mas é a estreia de Henrique Rodrigues no mundo dos romances. “O Próximo da Fila” é um retrato da grande distopia que é a vida real: “Eu sou gado, todo mundo aqui é gado, essa é minha vida. Eu sou cem por cento carne bovina.” Com contornos autobiográficos, o livro conta a história de um adolescente que, após a morte do pai, recorre a um emprego numa rede de fast-food para ajudar na renda da família. Sua narrativa cativante, onde o humor é bem dosado e a linguagem é fluida, faz da obra uma leitura rápida e prazerosa, mas não somente isso: O livro traz aqueles personagens sobre os quais normalmente não se fala; pessoas geralmente invisíveis na …

No meio dessa briga tem um Nietzsche

Se em “Romeu e Julieta” e “Abril Despedaçado” as mortes causadas pelas rixas familiares ficam por isso mesmo, em “Que fim levou Juliana Klein?” elas são investigadas. Não por acaso, seu título é uma pergunta bem direta. Afinal, ao contrário das histórias de Shakespeare e Ismail Kadare (respectivamente), o romance policial de Marcos Peres é ambientado numa Curitiba do século XXI e conduzido pelo olhar do delegado Irineu de Freitas. Marcos Peres, o autor, que em 2013 venceu o Prêmio Sesc de Literatura com “O Evangelho Segundo Hitler”, desta vez usou um aforismo de Nietzsche como inspiração. Alternando-se em 3 momentos temporais diferentes (2005, 2008 e 2011) e com uma rixa familiar no pano de fundo da história, Marcos aborda a nocividade das crenças cegas – que, aliás, nem sempre são religiosas. Juliana Klein, a grande motivadora do título do livro, é mais que especialista no filósofo alemão: ela chega a ser obcecada.

O Gigante Enterrado é sobre todas as coisas

Eu estava por fora da hype. Meu primeiro contato com ele foi através de uma amiga. A Gabi Félix tinha os óculos mais legais da escola e foi ela que me apresentou uma das minhas séries favoritas, então eu confio no gosto dela. No dia seguinte em que a Gabi disse que queria ler “O Gigante Enterrado”, eu fui à livraria conhecê-lo ao vivo: Uma edição impecável, que encanta à primeira vista pela aparência, e já na primeira página pelo conteúdo. Comecei a ler ali mesmo, no café da livraria, e durante os dias que levei para terminar de lê-lo eu fui outra pessoa.

Paixão obsessiva à primeira vista

Não é por acaso que “Minotauro”, romance do israelense Benjamin Tammuz, faz alusão à criatura mitológica.  Assim como o mito grego sobre a besta com cabeça de touro, o livro parte de uma paixão avassaladora rumo a um desfecho devastador. Ler “Minotauro” é como andar num labirinto com o predador em seu encalço. “Nenhuma realidade é capaz de afastar um sonho. Nenhum ser vivo pode vencer um fantasma” (pág. 103) No dia do seu aniversário de 41 anos, um homem se apaixona por uma adolescente dentro de um ônibus londrino. A menina, sem suspeitar do homem que agora a segue à distância, desce do ônibus e caminha para casa, revelando assim seu endereço. E então, nos dias que se seguem, ela começa a receber cartas anônimas desvairadamente apaixonadas. O homem em questão é Alexander Abramov, agente secreto israelense que, durante uma missão clandestina em Londres, finalmente vislumbra sua razão de viver: a menina Téa. A partir daí, acompanhamos uma enxurrada de versos que assediam a adolescente. E a reação de Téa a tudo isso vem conferir uma dose extra de suspense à história. “Tiro seus …

Mistério em terras afegãs

Especializado em jornalismo internacional, Igor Gielow migrou o conhecimento adquirido ao longo dos seus muitos anos como correspondente e escreveu um romance. Publicado há pouco tempo pela Editora Record, “Ariana” é a cria que guarda semelhanças com o criador: Mark Zanders, o protagonista, é um jornalista brasileiro a serviço de um jornal londrino no Afeganistão. Sobrevivente de um atentado, é ainda entre os escombros que o protagonista recebe a grande missão de sua vida: “encontrar Ariana”. Quem lhe dá as fracas coordenadas é seu assistente agonizante, e então começa sua saga. Mark se compromete a encontrar aquilo que lhe poderá trazer muitas respostas. Ariana, aparentemente um nome de mulher… Mas encontrar uma única mulher no meio de um Oriente Médio em guerra? Nada fácil. “Deve haver tratados científicos sérios, poesia de qualidade e muita música pop lacrimosa escrita sobre esse momento, em que algo acontece a duas pessoas completamente distintas que as aproxima irresistivelmente” (Pág. 32) A história, sem dúvidas, é instigante. Pontuado por muita ironia, drama e suspense, o livro acompanha a trajetória de um jornalista sarcástico que se …

“Sobreviver não é suficiente”

Em um mundo cuja população mundial foi dizimada por uma gripe, uma trupe de artistas viaja apresentando peças de Shakespeare. E por que eles fazem isso? Porque sobreviver não é suficiente. ❤ Dê o play e conheça minha história de amor com “Estação Onze”, romance da escritora canadense Emily St. John Mandel publicado recentemente pela Editora Intrínseca: Aparece neste vídeo: “Estação Onze” (“Station Eleven”) Autora: Emily St. John Mandel Editora: Intrínseca Páginas: 320

Dândi norte-americano em Madri

Viciado em antidepressivos, o poeta americano Adam Gordon aproveita sua estadia em Madri, financiada por uma bolsa de estudos para seu projeto de pesquisa que, por depender de sua vontade própria, não avança. Assim começa “Estação Atocha”, romance de estreia do também poeta e também americano Ben Lerner. Valendo-se de uma narrativa aparentemente horizontal, típica de um personagem dândi, o livro acerta em cheio ao brincar com alguns clichês do mundo artístico e abordar questões como a autenticidade das reações de um observador em relação a uma obra de arte. Ao contrário de todos ao seu redor, para Adam uma ida ao museu é um passeio sem emoção, sem catarse, ele não consegue ser tocado por uma obra de arte. A fim de não parecer estranho, de continuar “pertencendo ao grupo”, ele adota uma saída: Finge reações, um ator da vida real – e que ator talentoso ele se revela! “(…) com apreensão, me dei conta de que ela esperava me encontrar mexido, muito comovido e que era assim mesmo que eu tinha que me mostrar a ela (…). Virei-me …